‘seus olhos – se eu sei pintar o que os meus olhos cegou – não tinham luz de brilhar, era chama de queimar; e o fogo ateou vivaz, eterno, divino, como facho do destino. divino, eterno! – e suave ao mesmo tempo: mas grave e de tão fatal poder, que, um só momento que a vi, queimar toda alma senti… nem ficou mais de meu ser, senão a cinza em que ardi’. 

Com as intensas palavras de Almeida Garrett regresso ao Porto feliz pelas futuras descobertas. E quando o escrevo não o faço apenas por ser mais uma das nossas mais bonitas cidades, mas porque sempre que toco o postal do Porto apaixono-me de olhos abertos pela proximidade das margens do rio, ou por um dos finais de tarde mais bonitos do mundo.

Numa das ruas mais interessantes da Baixa Portuense, onde se exibe o café da Brasileira e depois de cento e vinte e dois anos do incêndio no desaparecido Teatro Barquet, o Hotel Teatro que ocupa o mesmo espaço estende a Rua Sá da Bandeira a um acto onde os panos se abrem ao primeiro design hotel da cidade e a um Porto cada vez mais extraordinário. Altivo, o projecto arquitectónico tem um traço contemporâneo sem ferir a estética dos edifícios da Baixa e os interiores intimistas a cargo da sempre surpreendente Nini Andrade Silva, preservam a alma de uma morada que homenageia o mundo do espectáculo. E na importância de que as cidades serão sempre as pessoas, o Hotel Teatro recebe as minhas palmas pela equipa, que mesmo com setenta e quatro quartos, não se desprende da missão do acolhimento familiar e a simpatia que se move vestida de tecidos fluidos. O restaurante ‘Palco’ candidata-se a ter o mesmo movimento que em Lisboa encontro na Brasserie do Hotel Tivoli ou no Flores do Hotel do Bairro Alto. E com a mais-valia de um restaurante que já conquistou o centro da cidade, o hotel ilumina-se em detalhes deliciosos, ao lado do poema de Garrett gravado na porta de entrada: o ‘lobby’ lembra-me antigas bilheteiras de cinema e o imponente espelho de do lavabo da recepção transportam-me a um espelho de camarim. Divididos em Gallery, Tribune, Audience, Suite Junior ou Suite, destaco os trinta e sete metros quadrados do Audience pela dinâmica estética do quarto e as suites onde banheiras com pés sugerem banhos espectaculares. O Hotel tem ainda um ginásio com uma vista agradável para as ruas da cidade e um terraço situado no coração do edifício, que além de ser mais uma homenagem à natureza artística do hotel, elevam a expressividade do teatro. Numa morada onde vale a pena pagar para ver e sentir, o Hotel Teatro não é nada menos do que mais ‘um fósforo para o milagre do fogo’, numa cidade onde me sinto sempre incendiada.

Hotel Teatro
Rua Sá da Bandeira, 84 Porto
Tel. 220 409 620
www.hotelteatro.pt

‘A cidade também nos constrói e nos dá sentido’
Incendiada ainda pela estética e pela poesia é agora urgente descobrir o Porto, uma cidade que me fascina pelo entusiasmo assertivo e ambicioso, na construção de espaços sempre tão singulares. Estou em cima da hora para almoçar com o amigo senhor, que em tempos entrevistava por estas páginas e na correria das saudades chego a tempo à acolhedora Taberna do Bonjardim, na rua do mesmo nome. Caixas de vinho em madeira a revestir a parede, pratos pendurados, cores, quadros e candeeiros a evocar outras épocas, ou escritos a giz sobre lousa, acompanham a variedade de petiscos caseiros num serviço que demorado se revela compensadoramente atencioso, não estivéssemos nós na terra da simpatia.

Solto-me de seguida pelas ruas da cidade e consigo finalmente entrar na Casa de Ló na Travessa da Cedofeita. Com tantas tentativas passadas de a encontrar aberta, jamais estaria preparada para a desilusão da viagem, ao descobrir um potencial imenso entregue ao desmazelo das vitrinas, à falta de produto ou ao ar sujo da apresentação da loja. Um espaço soberbo e carismático onde se pode comprar o mítico Pão-de-ló da Casa Margaride, distraiem a minha exigência pelas nossas queridas cidades e fazem-me oferecer os meus gratuitos serviços de consultoria, em proveito de gestos tão simples como elevar ao máximo um espaço que tem para ser extraordinário. Saio triste e no mergulho nas minhas notas e destinos procuro ansiosa a esquina da Rua da Conceição com o Largo Mompilher. Encontro o Café Candelabro, que nasceu num antigo alfarrabista e que em homenagem à vida do meu pai dedicada aos livros, me devolve as emoções felizes ao deliciar-me com o chão preservado, os livros espalhados pelo café ou as montras muito bem conseguidas, onde máquinas de escrever glorificam o nome do meu blog. Cheio de portuenses que relaxam e gozam o ‘wireless’ oferecido entre torradas e compotas, cadeiras vintage, estantes com livros de fotografia, cinema, teatro ou artes plásticas fazem-me beijar de coração cheio a magia do Porto.

Na continuidade da elevação das palavras, elevo-me no testemunho de Helder Pacheco, no Café 3C.E se ‘o Porto, cidade, somos nós, as pessoas, (mais a nossa cultura, que construiu e lhe deu sentido), a cidade somos nós, com a memória que dela mantemos e a asa de futuro que queremos para ela’. Rendo-me assim a uma cidade profunda e cosmopolita, onde um restaurante bar se revela através de antigos contentores de carga e frases soltas nas paredes.  Marco o encontro sempre obrigatório com a Livraria Lello na Rua das Carmelitas e por boa energia apanho aberto a meio da tarde o bar ‘Era uma vez no Porto…’, que no meio de livros e paredes forradas a papel revelam uma prometedora atmosfera alternativa. Ainda à procura da memória de outros tempos, desloco-me agora para o primeiro andar do número vinte da Rua Galeria de Paris, para descobrir o que a Catarina Portas fez por cá. Linda a loja como seria de esperar (obrigada Catarina pela mestria com que propões o carisma de Portugal ao mundo), saí determinada a escrever nestas linhas, a minha opinião sobre os Armazéns Fernandes Mattos, que antecedem o rés-do-chão e são passagem obrigatória à Vida Portuguesa. Não sou complacente com a fraca escolha de selecção do artesanato e com toda a ousadia atrevo-me a sugerir que ofereçam de bandeja o vosso piso térreo à loja de cima. Tenho dito.

Haja então ainda tempo, para tratar da minha irritação no Café da Galeria de Paris enquanto se toca piano ao vivo. Somos poucos a esta hora do dia e talvez por isso as velharias e brinquedos que se exibem nas vitrinas do café bar (que é já uma cartão-de-visita do Porto) me transportam a uma viagem por momentos sem regresso: esta cidade é um espanto. Na procura de mais beleza e na direcção do bairro da arte ganho a viagem, quando descubro que a Rota do Chá ocupa agora o edifício todo ou que as roupas do Quarto de Cima trocaram o primeiro andar da Casa Almada pelo bairro da Miguel Bombarda. Ainda a tempo de acompanhar esta cidade onde a cada bom dia me chamam de ‘menina’ remato com chave de ouro na Ribeira, com um jantar descontraído no Pimm’s. A espontaneidade de uma cidade do mundo recorda-me os meus três anos de vida em Amesterdão quando uma mesa de holandeses pergunta-me pelo Porto oferecendo-lhes a sorte grande.

Abandono o cenário da cidade, num restaurante com um serviço raro nos dias de hoje, onde o ambiente de brancos escandinavos e um bacalhau com broa extraordinário me confirmam a gratidão de voltar muitas vezes a esta cidade. Despeço-me com saudades das românticas gaivotas nos Aliados e na eloquência das palavras de Pacheco memorizo que ‘a cidade é um grande, um vasto objecto das emoções dos sonhos, ternuras e desesperos que fazem a vida. Um lugar onde nascemos ou vivemos, a cidade também nos constrói e nos dá sentido e por isso deveria ser cuidada (…) com amor’.  No caso do Porto, não há margem para dúvidas.

crónica publicada na edição de Novembro de 2010 na GQ

 

3C Café Club
Rua Cândido dos Reis, 118 Porto
Tel. 222 018 247
www.clube3c.pt
A Vida Portuguesa
Rua Galeria de Paris 20, 1º Porto
Tel. 22 202 2105
www.avidaportuguesa.blogspot.com
Café Candelabro
Rua da Conceição, 3 Porto
Tel. 96 698 4250
www.cafecandelabro.com
Casa de Ló
Travessa de Cedofeita 20A, Porto
Era uma vez no Porto…
Rua das Carmelitas, 162, 1º Porto
Tel. 222 022 240
Galeria de Paris
Rua Galeria de Paris, 56 Porto
Tel. 934 210 792
Pimm’s Café Restaurante
Rua Infante Dom Henrique, 95 R/C Porto
Tel. 222 015 172
www.pimms.com.pt
Quarto de Cima
Rua do Rosário, 154 Porto
Tel. 222 010 149
Rota do Chá
Rua Miguel Bombarda, 457 Porto
Tel. 220 136 726 / 914 394 027
www.rotadocha.pt
Taberna do Bonjardim
Rua do Bonjardim, 450 Porto
Tel. 222 013 560