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Lisboa estende-me à criatividade. Sempre foi assim, desde que me lembro dos meus dias de menina a descer o Chiado levada pelas distantes mãos de veludo.

Nessa Lisboa gosto de me sentir co-criadora da realidade mais pura de todas, uma Lisboa onde as emoções elevam os sentimentos. Assim me movo todos os dias pelas ruas da cidade. E como uma miúda que tem o privilégio de olhar para a parte mais luminosa da vida, corro atrás das esquinas escondidas com possíveis cartazes do Daniel Filipe, onde o amor pelo mundo se denuncia.

Hoje vivemos horas que tanto homenageiam as palavras de Sophia, quando partilhava este lugar tão frágil que é o mundo. Por isso a importância da criatividade nos tempos inconstantes das cidades surpreendentes. Não tenho dúvidas: amo muito esta crise. E não, não posso passar indiferente à delicadeza da palavra sobrevivência, mas seria uma ousadia à minha evolução humana não reflectir o tempo de ouro. Tempo em que assisto à partilha dos seres humanos em busca do mais importante de tudo: o tão perdido projecto humanidade. Nesse caminho que se faz caminhando, mais do que qualquer poder ou matéria, o património mais indispensável de todos: os outros do outro lado dos vidros hoje finalmente em desconstrução.

Não foi a primeira montra viva que ofereci ao Príncipe Real Live. E num dos bairros onde à noite me torna mais alta, sempre que me penduro nas árvores do jardim enquanto a cidade dorme, persigo uma entrega inteira. Os anos passam e assistindo a uma Lisboa que não para de me surpreender, recebo oxigénio onde habita a liberdade e a possibilidade de sermos o mais puro da nossa essência.

Na espontaneidade criativa e feminina, recordo a experiência da montra com ternura. Imagens que me movem na missão de acordar por Lisboa todos os dias, num silêncio que separa os meus sonhos dos viajantes da cidade. Segundos congelados onde agarro com gratidão toda a beleza. Dias onde sentada numa montra recebo também eu de mãos abertas, as palavras de Pessoa. Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetador de mim mesma, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.

No desassossego confirmo a fantasia. Mas também a sempre nobre aceitação da realidade e o respeito ao legado tão forte que é o tempo. O nosso tempo. Nas pontas dos dedos elevo o cristal mais puro, a loucura que não separo da genialidade de todas as pessoas raras que me fazem subir às copas das árvores. Nesses galhos lacro a ousadia de construir uma história, onde será sempre possível dar vida à nossa imaginação.

Hoje, abraçada às palavras do poeta, reconstruo-me a ouro e sedas, em salas supostas, invento palcos, cenários para viver o meu sonho. Um sonho numa cidade onde tudo é possível e onde os poetas escrevem que levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou. Nesses sorrisos que passam e nas sagradas memórias que nos selam, uma única certeza, temos o dever de sonhar. De sonhar sempre.

crónica publicada a 14 de Julho de 2011 na Vogue

 

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