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E se fossem como esta viveríamos felizes para sempre. A nova Taberna da rua das Flores é uma mercearia de queijos, manteigas, enchidos e azeites, mas acima de tudo uma taberna de vinhos e petiscos.

A personagem principal da experiência na nova taberna do bairro que me viu crescer – o Chiado – chama-se Bárbara. Poderia aplicar um ‘estudo psicológico’, ‘as suas causas remotas’ e as suas ‘consequências’ mas nesta morada retenho-me apenas nas flores, não na tragédia do final da história.

Bem perto da estátua de Eça de Queiroz, autor da ‘Tragédia da Rua das Flores’ que na sua primeira edição se exibe em tons laranja num dos armários de parede elevo mais uma vez a importância de me focar no mais importante. Sentei-me numa das mesas, num dia de chuva extravagante e com ela gozei a raridade de almoçar sozinha. Lamentável para muitos, eu gosto da experiência porque fico mais atenta a tudo o que me rodeia. Sem qualquer vontade de fugir com um amante espanhol ou com um senador francês, e sem nome de Joaquina ou Genoveva, o meu nome estende o orgulho português na experiencia de viver mais um bom exemplo da nossa cidade. Por isso agradeço não ter razões para me atirar de nenhuma varanda como a Genoveva: as descobertas que vou recolhendo desta morada apenas me fazem sorrir.

Broa de Avintes cortada em fatias muito finas, azeite e azeitonas apresentam-se enquanto observo o rodopio de gente que tenta encontrar mesa. A taberna é pequena – tem duas salas, eu aconselho a primeira – e não aceita marcações, por isso a hora de chegada é vital para conseguir sentar-se na taberna mais atrativa do momento.

Um chão característico, pequenos armários bem conservados, paredes brancas e portas cor de sangue fazem acontecer o cenário sofisticado na sua simplicidade. Os pratos do dia navegam pela taberna em forma de ardósia emoldurada: há Cação com Migas, Iscas com Elas ou Meia Desfeita. Escolho a terceira enquanto retenho o meu olhar numa garrafa de cerveja. Linda, respira bom gosto dos valores originais, numa marca do norte de cerveja artesanal: Lovina intitula ‘uma cerveja genuína a partir de métodos artesanais’.

Um anúncio na parede avisa-me que desapareceu da taberna o corvo Vicente, com oferta de alvíssaras a quem encontrar o seu paradeiro. Como grande amante desta cidade e mesmo sem encontrar o pássaro perdido, considero-me recompensada pelo encanto dos detalhes.

Bárbara é do Porto e não pára quieta nem um segundo. Enquanto aguardo, observo os produtos de mercearia exibidos nas prateleiras e nos pequenos armários. Passa por mim uma Miomba, uma suculenta sandwich de cachaço em pão de água e batatas fritas empratado numa caixa de cartão reciclado. Esteticamente bem conseguida para o jeito de taberna, volto a agradecer a crise e a quantidade de portas que abriu neste sistema de partilha. A Meia Desfeita chega e confesso que estava à espera de mais bacalhau para a quantidade de grão. Além dos pratos do dia há muitos petiscos para partilhar na companhia de bons vinhos das nossas terras. Há provas de queijos, enchidos e manteigas, mas também conservas. Nas sobremesas há bolo de chocolate da D. Graça e Arroz Doce que a D. Fátima que cremoso, líquido e suave tenta-me a dádiva de uma nota bem alta a uma sobremesa que nunca me disse muito. O arroz doce aqui tem pouco açúcar e é uma delícia.

A luz revela-se genial como o exemplo do lustre que encobre o balcão de serviço construído com copos de vinho. E na agitação da sala com clientes à espera apresento-me a Barbara enquanto confirmo que é do Porto. O trabalho é tanto que não pode falar comigo e compreendendo a receita do seu sucesso, trago na fatura um carimbo onde mais tarde confirmo não haver telefone. Enquanto pago dou o meu cartão e já que a agitação promete longas horas, peço o favor de me ligar porque as minhas histórias falam acima de tudo de pessoas.

Porque a Bárbara esqueceu-se de me ligar sou obrigada a voltar no dia seguinte e por volta das seis e meia da tarde continua a não haver disponibilidade para me contarem a história desta deliciosa taberna. Acolhendo grande tensão nas mãos e no olhar de Bárbara engulo um sapo vivo enquanto me dizem que ‘não trabalham para jornalistas’. ´Sorrio por dentro e confesso por estas linhas aos meus leitores que não há espaço para tragédias nos meus dias vividos nesta cidade. Adoro Lisboa e é caso para escrever que ‘eu também não trabalho para restaurantes’. Quando marco uma mesa nunca uso o meu nome e aprecio tudo até ao grande final, momento em que entrego um cartão e peço permissão para tirar fotografias. Orgulho-me de tentar passar despercebida e pago a conta sempre com a liberdade que darei ao meu leitor a experiencia sempre íntegra da minha independência e das minhas escolhas inteiras.

Na Taberna da Rua das Flores não posso orgulhar-me do final da minha história, e na alegria de que trabalho apenas para os meus leitores, jamais faria do episódio uma tragédia. Senti que a Barbara era vítima do seu cansaço e no final da história quem a pode censurar, já que teve a genial ideia de oferecer a Lisboa uma Taberna tão desejável e concorrida?

crónica publicada a 12 de Abril de 2012 na Vogue online

A Taberna da Rua das Flores
Rua das Flores 103 Chiado
Tel. 21 347 9418 (não aceitam reservas)
facebook aqui
Seg a Sex 12h – 24h e Sáb 16h – 24h