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A imagem de Rich Lam tem sido a minha fuga, aos pensamentos que hoje me passeiam a mente. A sério, sabem que eu sou uma lutadora, que nunca baixei a cabeça. Que tenho feito as concessões todas para continuar a crescer, para continuar a levar o meu trabalho para a frente. Não pensem que só porque a estética abunda nesta plataforma são tudo rosas. Longe disso, faço e tenho feito ultimamente muitas conceções, muitas mesmo, para continuar a acreditar Portugal. Para continuar a defender a nossa marca, para continuar a crescer profissionalmente e a partilhar as nossas cidades aos olhos dos portugueses e do mundo.

Enquanto vos escrevo oiço lá fora uma manifestação. Acabei de me inscrever num Mestrado em Estudos Urbanos na Universidade de Lisboa (ISCTE) em parceria com a Nova e jamais me passaria abandonar o país agora. Não sei onde me estou a meter, mas não penso muito. Sigo em frente enquanto afio as flechas.

E revolto-me. Revolto quando leio notícias como esta (a família de do ex-primeiro-ministro José Sócrates tem 383 milhões em offshores). Considero-me apartidária, e sempre votei em pessoas, não em partidos e aquilo que sinto é que estamos a apertar o cinto – e estou e estarei sempre cá para enfrentar a guerra na linha da frente – mas o que me preocupa é o sabão. O sabão que vejo nas solas do Governo. Governo feito de todos eles.

Fui ensinada a ser estoica. O meu Pai, que fazia esta semana 81 anos, passou todas as adversidades da vida. Contra tudo e contra todos e apesar dos muitos defeitos – como o seu silêncio – foi com este mesmo silêncio que aprendi a observar a maneira como dava a volta aos maiores desafios. No seu processo de vida chegou a estar quinze dias numa solitária na queda do regime. Nunca deixou de acreditar e com quatros filhos refez mais tarde todos os seus sonhos. Tornou-se um dos alfarrabistas mais respeitados de Portugal e mesmo, a dormir ao molho com a família nas traseiras do Alfarrabista, na Rua do Alecrim, colocou-nos nos melhores colégios de Lisboa na altura. Nunca sabia como ia ser o dia seguinte, mas acreditava. Fez por si, trabalhou muito, acreditou e dedicou a vida à história do seu país.

Eu nasci na madrugada do 11 para 12 de Março de 1975 e procuravam o meu pai para a ‘matança da Páscoa’. A minha Mãe, com apenas 27 anos e quatros filhos tinha o marido desaparecido. Grávida de nove meses e estando em Alcobaça – Mosteiro que me deu o nome, porque o meu Pai dedicou também a sua vida a reunir os livros desaparecidos da ordem de Cister – partiu para Lisboa. Dias antes os meus irmãos mais velhos com nove e oito e dois anos foram acordados com canos de metralhadora durante a noite. Pintaram-nos a casa e os canteiros do jardim de tinta vermelha, com palavras de ‘morte’ escritas nas paredes brancas. Na viagem que me daria vida, o carro conduzido no escuro da noite pelos meus Avós maternos e a minha Mãe, já em trabalho de parto, foi mandado parar. Metralhadora pela janela que o marido tinha de ser caçado. A minha Mãe entra em delírio e nasci ali mesmo, com tempo para uma cesariana num hospital de província, assim, longe do meu berço urbano.

Seguiram-se dias de incógnita e a minha Mãe com uma recém-nascida nos braços e mais três crianças rapazes. Não imagino o desespero, mas sei que agradeço muito a minha Avó Leta ter lá estado para me abraçar. Já não está entre nós há alguns anos, mas nunca me irei esquecer do seu adeus à varanda de ferro forjado, sempre que íamos embora dos fins de semana de família e do seu sorriso lindo, tranquilo e suave, sem queixume, como se a vida para ela fosse fácil. Nunca foi.

Assim me construí como menina guerreira. Única rapariga entre quatro irmãos, toda a vida ouvi dizer se ‘é a única menina, deve ser era mimada’. E era, éramos todos. E sim tinha uma cama de dossel e laços de cetim na cabeça para não virar Maria rapaz. Não virei. Já na vida a história é outra. Viver não é para meninos. Nem meninas. Por isso a vida arranjou a melhor formula de me ensinar, que é preciso ser forte. Muito forte. E foi preciso aprender com as quedas da vida. É fulcral nunca perdermos o norte, nunca perdermos o eixo da nossa essência, do que fomos, do que somos e do que queremos ser no futuro.

A vida, mesmo com a maravilha que foi aprender tudo às três pancadas (tipo se não aprendes a bem aprendes a mal) e dando-me a alternativa de um recomeço com uma segunda volta, ensinou-me que somos nós que delineamos a nossa vida, pelas nossas escolhas. E não me venham com desculpas de que fomos mal orientados, isto e aquilo. Somos nós, e apenas nós, que escolhemos a nossa vida. De que lado queremos estar. Se queremos deixar ‘entrar a sombra’ ou se queremos viver na luz. E amarmo-nos, investirmos primeiro que tudo, na mais importante relação de todas : a nossa, connosco próprios.

Noutra vida devo ter andado por aí a flechar. Ando doida para aprender (conhecem algum professor ou morada?). Já prometi às minhas framboesas (vulgo sobrinhada toda) ver o Brave. Têm mais sorte do que eu, já que cresci com Cinderelas e sapatos de cristal, mas a vida ensinou-me que esse conto de fadas não é, jamais será real. O percurso da vida está cheio de maças envenenadas, bruxas com cara de rainha. E é preciso ser humilde e audaz para ver os príncipes por trás dos monstros. Por isso treino as minhas princesas para a vida. Claro que têm direito aos kits cor de rosa e às croas de princesa,  mas é preciso falar nas entrelinhas. A vida não é fácil, jamais será, qualquer que seja o século. Por isso vejo estes anos que cá estou como uma enorme árvore que vou subindo, com desafios a superar e quando mais subo mais luz e energia para continuar a fazer aquilo que penso ser uma vida na terra: a evolução do nosso melhor lado, ou se quiserem, a evolução da nossa alma.

Volto a dizer-vos que sou apartidária. Nunca concordei com a ditadura, mas tenho de reconhecer que estes anos de democracia fizeram crescer a gordura demagoga, de quem faz carreira na política. E só espero que mais uma vez Portugal não se encoste, não seja o que não quer incomodar. Aquele que tem vergonha de pedir o livro de reclamações. Que não seja aquele que não quer saber, porque dá trabalho ou custa pensar pela nossa cabeça ou porque tem mais que fazer do que se juntar ao povo, esse povo do qual fazemos todos parte. Só espero que se houver manifestações não fiquem em casa, a fingir que não é nada consigo. É tudo connosco. Com os nossos filhos, com os nossos sobrinhos, com a nossa velhice se lá chegarmos.

Hoje apanhei este texto na blogosfera e que já tinha lido no facebook. Não sei quem é a cidadã de trita e dois anos, mas gostei  por ser – com ou sem f%#& – representativo do que muita gente sente. Termino este texto a perdir-vos não se conformem e se for preciso voltamos a rua. Eu já ando a colecionar flechas. Sejam elas de contestação, de inconformismo, ou de simplesmente de quem não quer desistir. Assim como quem acorda, todos os dias, a achar impensável abandonar o seu país.

nota importante
nunca direi nunca até porque penso um dia em dar uma volta ao mundo, mas hoje é isto que penso, o futuro está lá à frente à espera das minhas melhores opções