Idosos em solidão, trocam-se histórias por soluções
por Sancha Trindade em Oct 1, 2012 • 15:44 • 14 comentários
Hoje acordei angustiada e já ontem à noite sabia que ia acontecer. Hoje é o Dia Internacional do Idoso e quando lancei esta plataforma propus-me a fazer alguma coisa sobre este tema. Alguns amigos mais próximos me perguntaram o porquê da sua importância e a resposta é bastante simples. Vivi 13 anos da doença de Parkinson do meu Pai, com a minha Mãe sempre estoica a seu lado, até ao limite da sua energia.
Da minha Mãe tomaremos nós conta, entre quatro irmão será fácil darmos-lhe todo o amor que vimos dar com as suas bonitas mãos até às ultimas consequências. Até torcer um pé na rua, foi a minha Mãe que lhe deu banho. Todos os dias. Sem prazo, sem ajuda e por respeito ao que o meu Pai sentiria – e que vaidoso que era – em estar a partilhar a intimidade de um banho diário, com uma desconhecida enfermeira. Era um peso grande e era raro queixar-se. Perdeu energia, mas hoje diz que dorme descansada por ter feito tudo o que podia e não podia para lhe dar os últimos anos de vida com dignidade.
Há pessoas que chegam ao mundo para servir. A minha Mãe é uma delas. Uma pessoa que na sua simplicidade, mesmo sofisticada, tem o dom da presença nos momentos mais difíceis. Assim guardo com ternura o postal, com que tomou conta do meu Pai, na certeza de que quando for ela, nada lhe faltará.
Vivemos tempos incertos. A Segurança Social tem os dias contados e todos hoje vivemos num limbo e na dúvida de como será quando lá chegarmos. Não sabemos. Parece que ninguém sabe. Poupanças para a reforma não é um discurso suave para um português do século XXI. Por isso me questiono muitas vezes. Estou preocupada com o meu futuro?, quando no nosso presente já existe tanta gente em constante desafio. Escreveria sofrimento até.
Voltando à angustia, que ando eu para de alguma maneira contraria esta doença tão grave do Século XXI, a solidão dos povos? Jamais mudaremos o mundo sozinhos, mas isto de desempenharmos bem o nosso papel neste mundo, tem muito a ver de como gerimos o quintal da nossa vida.
Quando lancei esta plataforma Atlântica sabia que queria contribuir para os idosos e para a sua solidão. Tenho andado o dia todo com o Sr. Artur e a D. Preciosa na lembrança. Antes do lançamento tentei que o Gabinete da Helena Roseta me recebesse, ou pelo menos respondesse aos e-mails enviados. nunca obtive qualquer resposta. De seguida fui à Santa Casa da Misericórdia e receberam-me mas não fui encorajada sequer, a apresentar a minha ideia. ‘Estrutura complexa para uma cabeça como a minha’ recolhi da simpática mas nada proveitosa reunião.
Já me conhecem não sou de ficar a falar sozinha. E se o barco tem lugares com remos vazios, sei que para remar preciso de dois braços. Quiz deixar a ideia no ar e por isso lancei o filme Bairro do Amor. Os tempos não andam fáceis e o projeto que tinha pensado com a Lifestories e o Luis Monge (autor destas imagens) anda difícil de implementar nos tempos que correm. É um enorme desafio e no formato de ‘O Bairro do Amor’ ou outro que venha a nascer uma coisa é certa: não desisti.
Enquanto não consigo colocar em pé e ao vosso alcance o que tinha e ainda tenho em mente, penso que será um desperdício não localizar alguns casos que estejam perto de nós.
Por isso além da justificação do que aconteceu ao projeto Bairro do Amor – e já nem sei se será este o seu nome – venho lançar hoje, Dia Internacional do Idoso, um espaço aberto para identificação de casos específicos.
Se sabem de alguém da vossa rua ou mesmo do vosso prédio que precisa de alguma ajuda específica, enviem-me um e-mail para sancha@acidadenapontadosdedos.com , que colocarei em agenda para se arranjar solução. Pode ser um simples electrodoméstico como uma campainha que não funciona, ou uma consulta num especialista. Uma operação urgente, ou mesmo um embaixador de leitura que possa visitar o idoso em causa.
No entretanto tentem, se se sentirem abertos a isso, dizer um simples bom dia a um idoso que passe por vocês na rua. Vão ver nos seus olhos, um brilho do momento que pode construir o mais elevado de um dia de um coração em silêncio.
Enquanto me desafio todos os dias a tentar implementar cá aguardo histórias para ver solucionadas. Os idosos em solidão merecem o empenho.





acidadenapontadosdedos_com
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14 comments
joana says:
Oct 1, 2012
muitos parabens por fazer aquilo que todos achamos que falta mas não fazemos nada por inercia
Fátima Pestana says:
Oct 2, 2012
Não sei se será apenas por inercia. Assusta-me terrivelmente ouvir, como já ouvi, o que dizem as nossas crianças dos avós. Leva-me a crer que a sociedade em que estamos inseridos desrespeitou totalmente os idosos. Não Cultivamos o respeito pelos avós no seio da família. Os filhos não são mais habituados a conviver com os avós como nós fomos. Não há lugar à troca de experiências geracionais. Os meninos acham que os “velhos” não servem para coisa nenhuma. Tudo isto me deixa assustadoramente triste. para onde caminhamos? O que será de nós velhos com os jovens que preparamos?
ana says:
Oct 4, 2012
Boa sorte, mesmo!
Maria says:
Oct 6, 2012
No meu bairro temos uma experiência muito positiva e quase mágica de trabalho efectuado com seniores (todos os que tenham mais de 55). Ninguem imagina o que se dá e o que se recebe naquele convivio inter geracional. São viagens de caracter cultural a custos módicos, festas convivio, actividades várias e com tão poucos gastos. Cada um dá aquilo que pode e melhor sabe : Ensinam costura, alfabetização,história,Teatro, informática, ginástica,actividades lúdicas e de desenvolvimento e manutenção das faculdades cognitivas..etc. Para os idosos isolados em casa por motivos vários, também há uma equipa que os visita para saber das necessidades e reencaminhar conforme o caso. Isto tudo é criado por uma Junta de Freguesia que incentiva as pessoas ,as Seniores mais activas e outros, tudo com carácter voluntário, a aderirem e a darem o seu melhor. E então o transporte solidário..Uma carrinha que transporta os idosos até ao Centro de Saude/ Hospital mas tb para visitar um amiga(o).É fabuloso ver pessoas com mais de 80 anos a quererem aprender informática por exemplo. A gostarem de viver e conviver de forma saudável não “incomodando” assim os filhos que estão tão ocupados com o dia a dia desgastante. Aquela equipa que dirige isto é de uma faixa etária muito jovem e mostra que há casos de sucesso no que respeita á forma correcta de se olhar para os idosos, como fonte de experiência e de um envelhecimento activo.Acreditem porque há casos destes que só nos servem para acreditar que podemos fazer mais e melhor pelo futuro!!
Sancha Trindade says:
Oct 6, 2012
Maria qual é o seu bairro?
Maria says:
Oct 8, 2012
Carnide. “Um Lugar Unico e Mágico”,como lhe chamamos. E a Junta tem o seu Orçamento em dia..algo assinalável nos tempos que correm.
Catarina says:
Oct 22, 2012
A Sancha é uma pessoa muito especial, tenho a certeza disso! Só alguém especial tem gestos assim.. Parabéns :)
M.ª José says:
Oct 30, 2012
Bem haja Sancha…Essa área é uma área cheia de potencialidades: os mais idosos por vezes não dão tudo quanto podem dar e ensinar porque lhes falta o estímulo para isso…O envelhecimento aumenta com a inércia,mas por contraste os neurórios multiplicam-se no cérebro com o exercício e os estímulos. Uma interacção é catalisadora e um manancial de boas surpresas. Desejo-lhe força e criatividade…
sandra ventura says:
Nov 8, 2012
Sancha… maravilhosa iniciativa. Estarei disposta a auxiliar com o meu tempo, a minha dispionibilidade mental e o carinho das minhas palavras (que por vezes parco é dado de bom gosto).
No meio da corrida do quotidano para o qual qianda temos rubor e joventude tendemos a esquecer que o caminho é para um desenlace um pouco diferente da robustez e do frenezim interpessoal que actualmente sentimos
Se considerar relevante aguardo contacto.
Sancha Trindade says:
Nov 8, 2012
Obrigada, será contactada assim que precisar de mais mãos. Para já são apenas casos pontuais e vou dando conta do recado. Mas vão ser precisas cadas vez mais voluntários. Muito obrigada e um bom dia para si.
Isabel Zambujal says:
Nov 16, 2012
Parabéns pelo seu texto e pela sua atitude. Portugal precisava de mais gente assim. Se precisar de ajuda pode contar comigo.
Sancha Trindade says:
Nov 16, 2012
Obrigada Isabel. Para a semana terei passos neste sentido…tem sido muito difícil e ainda não desisti. De qualquer maneira teno ajudado pessoas pontualmente, sem as expor aqui na plataforma pois não acho que haja necessidade. Mas apontarei a sua disponibilidade. O sentido de humanidade agradece ;-)
Helena says:
Apr 8, 2013
Olá Sasha, sou uma nova seguidora sua (conheci esta plataforma há pouco tempo e tornar-me-ei leitora frequente, tenho a certeza).
Conhece com certeza o Coração Amarelo – uma organização cujo único intuito é combater a solidão dos idosos – é possível que juntamente com as paróquias tenham muita experiência e ideias para implementar.
Boa sorte
Sancha Trindade says:
Apr 8, 2013
Vou explorar . PS – o meu nome é Sancha ;-)