Hoje acordei angustiada e já ontem à noite sabia que ia acontecer. Hoje é o Dia Internacional do Idoso e quando lancei esta plataforma propus-me a fazer alguma coisa sobre este tema. Alguns amigos mais próximos me perguntaram o porquê da sua importância e a resposta é bastante simples. Vivi 13 anos da doença de Parkinson do meu Pai, com a minha Mãe sempre estoica a seu lado, até ao limite da sua energia.

Da minha Mãe tomaremos nós conta, entre quatro irmão será fácil darmos-lhe todo o amor que vimos dar com as suas bonitas mãos até às ultimas consequências. Até torcer um pé na rua, foi a minha Mãe que lhe deu banho. Todos os dias. Sem prazo, sem ajuda e por respeito ao que o meu Pai sentiria – e que vaidoso que era – em estar a partilhar a intimidade de um banho diário, com uma desconhecida enfermeira. Era um peso grande e era raro queixar-se. Perdeu energia, mas hoje diz que dorme descansada por ter feito tudo o que podia e não podia para lhe dar os últimos anos de vida com dignidade.

Há pessoas que chegam ao mundo para servir. A minha Mãe é uma delas. Uma pessoa que na sua simplicidade, mesmo sofisticada, tem o dom da presença nos momentos mais difíceis. Assim guardo com ternura o postal, com que tomou conta do meu Pai, na certeza de que quando for ela, nada lhe faltará.

Vivemos tempos incertos. A Segurança Social tem os dias contados e todos hoje vivemos num limbo e na dúvida de como será quando lá chegarmos. Não sabemos. Parece que ninguém sabe. Poupanças para a reforma não é um discurso suave para um português do século XXI. Por isso me questiono muitas vezes. Estou preocupada com o meu futuro?, quando no nosso presente já existe tanta gente em constante desafio. Escreveria sofrimento até.

Voltando à angustia, que ando eu para de alguma maneira contraria esta doença tão grave do Século XXI, a solidão dos povos? Jamais mudaremos o mundo sozinhos, mas isto de desempenharmos bem o nosso papel neste mundo, tem muito a ver de como gerimos o quintal da nossa vida.

Quando lancei esta plataforma Atlântica sabia que queria contribuir para os idosos e para a sua solidão. Tenho andado o dia todo com o Sr. Artur e a D. Preciosa na lembrança. Antes do lançamento tentei que o Gabinete da Helena Roseta me recebesse, ou pelo menos respondesse aos e-mails enviados. nunca obtive qualquer resposta. De seguida fui à Santa Casa da Misericórdia e receberam-me mas não fui encorajada sequer, a apresentar a minha ideia. ‘Estrutura complexa para uma cabeça como a minha’ recolhi da simpática mas nada proveitosa reunião.

Já me conhecem não sou de ficar a falar sozinha. E se o barco tem lugares com remos vazios, sei que para remar preciso de dois braços. Quiz deixar a ideia no ar e por isso lancei o filme Bairro do Amor. Os tempos não andam fáceis e o projeto que tinha pensado com a Lifestories e o Luis Monge (autor destas imagens) anda difícil de implementar nos tempos que correm. É um enorme desafio e no formato de ‘O Bairro do Amor’ ou outro que venha a nascer uma coisa é certa: não desisti.

Enquanto não consigo colocar em pé e ao vosso alcance o que tinha e ainda tenho em mente, penso que será um desperdício não localizar alguns casos que estejam perto de nós.

Por isso além da justificação do que aconteceu ao projeto Bairro do Amor – e já nem sei se será este o seu nome – venho lançar hoje, Dia Internacional do Idoso, um espaço aberto para identificação de casos específicos.

Se sabem de alguém da vossa rua ou mesmo do vosso prédio que precisa de alguma ajuda específica, enviem-me um e-mail para sancha@acidadenapontadosdedos.com , que colocarei em agenda para se arranjar solução. Pode ser um simples electrodoméstico  como uma campainha que não funciona, ou uma consulta num especialista. Uma operação urgente, ou mesmo um embaixador de leitura que possa visitar o idoso em causa.

No entretanto tentem, se se sentirem abertos a isso, dizer um simples bom dia a um idoso que passe por vocês na rua. Vão ver nos seus olhos,  um brilho do momento que pode construir o mais elevado de um dia de um coração em silêncio.

Enquanto me desafio todos os dias a tentar implementar cá aguardo histórias para ver solucionadas. Os idosos em solidão merecem o empenho.