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Desde há uns tempos para cá que tenho a mania de colocar um objectivo anual radical a atingir em prol da minha felicidade. Depois de um salto para a atmosfera a 264 Km/hora e o meu primeiro mergulho ao ventre da terra nos Açores, este ano tenho como objectivo passar a circular em Lisboa, de bicicleta. Perguntam-me porquê? Porque acho que se a vida mudou tanto nos últimos meses, é urgente ouvir as entrelinhas de tudo o que nos tem andado a acontecer. Nunca “porquê?” Mas antes “para quê? “O que nos tenta dizer a vida, o planeta?

As vidas mudaram, disso ninguém tem dúvidas, mas porque não aproveitar a mudança para melhor? E porque me andava eu a sentir claustrofóbica dentro de um carro e a perder minutos de vida no trânsito? Mesmo com um Smart com teto panorâmico? De onde vinha esta claustrofobia e o sentimento de perdão à atmosfera por andar a poluir o mundo com a minha mobilidade? Do elétrico passei para penantes com sapatos rasos e hoje aventurei-me pela primeira vez numa bicicleta pelas ruas de Lisboa. Depois de três anos de vida passados em Amesterdão também eu achava que seria um desafio estoico por-me em cima de duas rodas colina acima, colina abaixo, mas enganei-me redondamente. Há alguns meses que não tinha esta sensação de felicidade pelas ruas da cidade.

Durante duas horas rasguei bairros, colinas e ruas e ao contrário do que estava à espera, em vez de me abalar com o possível receio de quem mergulha na experiência do desconhecido, ganhei anos de vida, um enorme bronze e um grande sorriso na cara.

Enquanto vos escrevo ainda flutuo, assim como uma miúda a quem deram um tesouro. E se por momentos me senti de novo criança nas memórias de um Verão Azul (quem se lembra?!), foi na fusão com os elementos da cidade que cresci em mente e em alma. Piranhas (quem se lembram desta personagem deliciosa?) nem mesmo os automóveis, os autocarros ou os eléctricos. E confesso achava que seria um desafio corajoso, mas nada como entregarmo-nos à prova para desmistificar o mito. A sensação de liberdade, os elementos na natureza fundidos com a paixão que tenho por esta nossa Lisboa, a brisa Atlântica, o Sol, as sombras, mas sobretudo os aromas dos bairros que vão mudando e ficam mais ativos quando os atravessamos a uma velocidade esvoaçante. E as cigarras? Os sons das cigarras que apanhei ali perto do Jardim da Estrela?

Para me desafiar ao limite, vivi a experiencia com um vestido comprido de seda, saltos altos, carteira pendurada e confesso que optei pela experiência sem capacete, para  testar a brincadeira da forma mais complicada que conseguisse. Se é para mudar de estilo de vida era bom que esta experiência resultasse no seu máximo esplendor, pois pretendo aderir ao uso de bicicleta como fazia em Amesterdão, debaixo de chuva, neve ou graus negativos (felizmente estas duas ultimas não nos assistem).

A grande conclusão da experiência é um elogio à alegria. Com passagem pelos mais importantes bairros da cidade, tive também de experimentar o meu percurso diário da Estrela à Rua Garrett, fazendo as calçadas envolvidas (da Estrela e do Combro) para ver se chegava lá acima. O truque? Diria que são três: Uma enorme vontade de largar o carro e passar a ser mais livre e feliz na fusão da brisa Atlântica, um banco confortável e um motor que nos ajude nas colinas. Sem ele não me arriscaria a mudar de estilo de vida, porque sou estoica mas não sou parva e chegar ao Chiado a pingar de cansaço não pode fazer parte do plano. A bicicleta que usei ajudou à festa, mas este será tema para uma escrita futura.

Por isso aqui deixo o veredicto final. Depois do que vivi hoje vou adormecer de sorriso maroto na cara, sorriso de quem com uma mudança tão simples encontrou mais umas instruções para erguer a felicidade. E aqui estou eu, já em pulgas para deitar a chave do meu carro ao Tejo e passar a esvoaçar pelas ruas da cidade. Sempre com Lisboa solta nos cabelos, claro ;-)

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