Quinta dos Malvedos Douro Graham's Symington Family © Sancha Trindade 3 (3)Pin it

Chego com as mãos frágeis. No perdão aos meus leitores, a distância de uma crónica que deveria ter sido escrita em Outubro e a humildade da incapacidade das palavras. A magia dos tesouros não deve ser escondida do mundo, e hoje de mãos acesas e coração entregue aos desafios a que somos testados consigo partilhar-vos a Quinta dos Malvedos, de onde brotam os sublimes vinhos da Graham’s.

A vida tem tantas dúvidas. Mas na certeza do que somos e mais perto do nosso lado maior, reencontro-me nesta moradas elevada que é o meu lindo Douro. O convite chega-me pela família Symington e entregue a uma carruagem que distância o que de mais belo existe entre Lisboa e Porto, consigo respirar fundo e sair pela primeira vez desde que a vida me resgatou a uma missão familiar.

Os caminhos rasgam-se pelo pelas estradas imortalizadas de Torga e nas conversas dos anjos sela-se o mais puro dos seres humanos. Afinal todos temos uma história e sermos divinos é também entregarmo-nos ao mais profundo da vida, com a mesma dignidade com que subimos às copas das árvores.

A Quinta do Malvedos foi adquirida pela família Symington em 1890, e é nas suas terras que se reconhecem um dos mais esplendorosos vinhedos do Douro Superior. Situado na região do Alto Corgo perto do Tua, os vinhedos são virados a Sul, maturando as uvas na sua estação de crescimento. Assim se dignifica o vinho do Porto de excelência, que brota dos recortes de xisto.

Falam-me os amigos de Lisboa que vou a caminho da Quinta da Gaiola Dourada. E na não percepção do que realmente brota da terra, sorrio. A morada é muito mais do que um cenário de um filme que enche salas de cinema. E não duvidarei nunca da esperança de um povo, onde os finais felizes serão mais reais do que uma vida inteira de trabalho. Aqui, nesta casa, toco sublimemente a grande intensidade do Douro. E aos corações mais débeis é permitido inspirar fundo, é permitido sugar das entranhas da terra uma esperança e uma parte de mundo que não é daqui.

Da varanda do meu quarto, sinto o aroma dos figos e apanho os raios de sol um a um. Um dia também aqui sonhou Jonh Major e mesmo sabendo que ‘quem nunca cometeu um erro nunca tomou uma decisão’, não tenho dúvidas de que com as maiores quedas da vida é também permitida a libertação dos pássaros das gaiolas.

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No eco das paredes da casa, a Branca orquestra a cozinha de onde brota o cheiro a roupa lavada e o aroma das romãs maduras. A eficiência da Prazeres prepara a mesa do almoço. As amêndoas e o presunto respiram a simplicidade das fardas imaculadas de quem nos serve e recebida como alguém da família e com a genuinidade do vale, os raios de luz inundam a mesa e os vinhos da casa. Na extensão da mesa há azeite e pão como só os ares do campo o sabem coser, há sorrisos subtis e sorrisos largos, há boas conversas e há queijos do mundo e marmelada caseira. E há um Tawny de 20 anos servido pela tão única expressividade do Joe, que ao inundar o palato e as veias fazem-me agradecer estar tão viva no privilégio desta casa.

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Na sala respira uma biblioteca e uma vista deslumbrante sobre o rio. No silêncio de uma casa onde o tempo é maior ouso abrir um livro mais antigo. As imagens contam-me tudo. Segredam-me as palavras, as bravuras, segredam-me o encontro entre os homens, o pulsar da terra, as fortes correntes dos rios e a intemporalidade da distância de tantas vidas, que apesar das memórias ainda vivem entre nós.

É preciso escutar a mensagem, renovar a entrega do que somos enquanto humanos que pertencem ao mesmo mundo. A celebração oferece-me a surpresa de um Porto Vintage com a minha idade. Os dias delicados de Miguel abrem com o elogio à vida um vinho de 1975, um ano importante na minha história e na do meu país. Assim me percorrem a sensualidade da canela, a frescura da menta, as folhas esvoaçantes do eucalipto abraçados ao esplendor das uvas, envolvendo-me no estado líquido de um veludo muito nobre. Releio a carta da vida, confirmo todas as memórias e retenho-me no que importa agora guardar. As vinhas abanam lá fora e hoje voltam a confirmar-me que estarão aqui por muitos anos.

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A viagem do tempo permite-nos uma carruagem de conquistas e se a velocidade dos dias mais urbanos nos consome, não tenho duvidas: o tempo na Quinta dos Malvedos é quem gere o movimento das nuvens. E nem as horas de sono, ou o cansaço reservado aos espelhos em que não me reconheço, acolho na luz da manhã os olhos sonolentos. Nada me impediria de viajar pelos socalcos da madrugada, para retirar os frutos da terra.

Aos homens mais simples é dado o legado de fazerem acontecer um vinho que unirá os seres humanos do mundo. O Sr. Fonseca tem um sorriso de criança e é a ele que a quinta oferece a confiança de mais um Outono. Na extensão do seu sorriso, a grandiosidade do Juca, as mãos unidas do Nando, do Alexandre, do Carlos, do Tavares, do Tiago, do João e dos pássaros que testemunham tudo isto.

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Do chão da adega varre-se também o passado e das pipas outrora esculpidas pela entrega do Sr. Emílio, Henry leva-me a provar os primeiros sabores. Dos aromas quentes e adocicados das pipas, caminho até à sala onde o bater das máquinas me lembra o deslize das obras de Rothko. O sangue das uvas escorre na tela inoxidável e sou surpreendida pela capacidade de uma máquina, que pela imaginação da família Symington alcança a mesma missão da pisa humana.

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E assim, enquanto me reconstruo por tudo aquilo que me é mais divino, regresso com gratdão à natureza. A mesma com que honro os frutos da terra e que nas palavras do poeta não é mais do que um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. ‘Um’a beleza absoluta.

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