Sancha Trindade _ Isabel Saldanha Photography (4)Pin it

Desde que me atrevi a andar de bicicleta por Lisboa, estava mais do que prometido este post. Hoje apresento-vos a minha bicicleta, a Miss Atlântica, registada num cenário que acompanha bem o futuro que me direcciona o que pretendo para a minha cidade.

No início muita gente e chamou louca, mas para quem viveu três anos em Amesterdão, esta era uma causa que mais tarde ou mais cedo me ia bater à porta.

Sempre acreditei que todas as crises trazem muitas mudanças luminosas e o uso de bicicletas na cidade de Lisboa, foi com certeza uma delas. Desde há uns tempos para cá que rasgo-me pela ousadia de colocar um objectivo anual que me ultrapasse a zona de conforto. Depois de um salto para a atmosfera a 264 Km/hora e o meu primeiro mergulho ao ventre da terra nos Açores, em 2013 tinha decidido  passar a circular em Lisboa, de bicicleta. Muitos me perguntaram porquê? E a resposta foi sempre a mesma, acho que se a vida mudou tanto nos últimos dois anos, é urgente ler com urgência as entrelinhas do planeta.

Sancha Trindade Miss Atlântica copyright José Cabral O Alfaiate Lisboeta (3)Pin it

O gelo vai derretendo e nem sei o que vai ser de nós com tanto metano na atmosfera, mas desde que tomei esta decisão, relembro as palavras que escrevi na altura. Todos temos consciência de que as vidas mudaram, mas porque não aproveitar a mudança para melhor? E porque me andava eu a sentir claustrofóbica dentro de um carro e a perder minutos de vida no trânsito? De onde vinha esta vontade de ser ainda mais livre? E o sentimento de perdão à atmosfera por andar a poluir o mundo com a minha mobilidade? De um carro citadino passei para os passos largos pelas ruas da cidade e desde que me aventurei pela primeira vez numa bicicleta pelas ruas de Lisboa, apercebi-me do que andava a perder.

Depois de três anos de vida passados em Amesterdão também eu achava que seria um desafio estóico por-me em cima de duas rodas colina acima, colina abaixo, mas enganei-me redondamente quando descobri a minha bicicleta eléctrica. Da primeira vez que a usei – e fui muito inspirada pela Campanha que fiz para a CML na Semana da Mobilidade  – durante duas horas rasguei bairros, colinas e ruas e ao contrário do que estava à espera, em vez de me abalar com o possível receio de quem mergulha na experiência do desconhecido, ganhei anos de vida, um enorme bronze e um grande sorriso na cara.

Quando regresso a essa primeira sensação, volto a flutuar como ainda hoje acontece sempre que pedalo pelas ruas da cidade. Lembro-me que andei dias com uma sensação que apenas tinha em criança, com as memórias de um Verão Azul (quem se lembra?) colada a pele. Na fusão com os elementos da cidade que cresci em mente e em alma, sobre Piranhas (quem se lembram desta personagem deliciosa?) nem mesmo os automóveis e os autocarros. E confesso achava que seria um desafio corajoso, mas nada como entregarmo-nos à prova para desmistificar o mito. A sensação de liberdade, os elementos na natureza fundidos com a paixão que tenho por esta nossa Lisboa, a brisa Atlântica, o Sol, as sombras, mas sobretudo os aromas dos bairros que vão mudando e ficam mais activos quando os atravessamos a uma velocidade esvoaçante.

E as cigarras? Os sons das cigarras que apanhei ali perto do Jardim da Estrela? Na altura para me desafiar ao limite, vivi a experiência com um vestido comprido de seda, sapatos com um pouco de salto, carteira pendurada e confesso que optei pela experiência sem capacete, para  testar a brincadeira da forma mais complicada que conseguisse. Se era para mudar de estilo de vida era bom que esta experiência resultasse no seu máximo esplendor, para aderir ao uso de bicicleta como fazia em Amesterdão, debaixo de chuva, neve ou graus negativos (felizmente estas duas ultimas não nos assistem muito em Lisboa).

A grande conclusão da experiência é um elogio à alegria. Com passagem pelos mais importantes bairros da cidade, tive também de experimentar o meu percurso diário da Estrela à Rua Garrett, fazendo as calçadas envolvidas (da Estrela e do Combro) para ver se chegava lá acima. O truque? Diria que são três: Uma enorme vontade de largar o carro e passar a ser mais livre e feliz na fusão da brisa Atlântica, um banco confortável e um motor que nos ajude nas colinas. Sem ele não me arriscaria a mudar de estilo de vida, porque mesmo tendo vontade estóica , não seria viável chegar ao Chiado a pingar de cansaço. O carro encosta-se à berma apenas para vagens maiores e mesmo nessas há opções bem mais económicas e amigas do ambiente. Para o Porto só vou de Alfa Pendular por exemplo e nos dias de chuva vou a pé ou uso alguns táxis.

E é isto, desde que aderi à bicicleta que adormeço de sorriso maior, sorriso de quem com uma mudança tão simples encontrou mais umas instruções para erguer a sua felicidade. No fim do dia há sempre uma relação com a nossa bicicleta, de grande cumplicidade e a brisa Atlântica que me esvoaça os cabelos dos ombros, parece a cada dia levar com mais força o que menos importa. Porque a vida é mesmo isto, é conseguir tirar partido do momento presente, e o que a Miss Atlântica me tem dado diariamente tem sido uma benção nos meus dias esvoaçantes.

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A Miss Atlântica, Italjet Prime da Prioe a descobrir aqui. Os Acessórios são quase todos da VeloCultute: banco da inglesa Brooks, cadeados da Kryptonite e porta cargas e caixa modelo experimental da VeloCulture com placas da EE Sousa e Silva um clássico da baixa Pombalina. Quando pedalo à noite não dispenso umas luzes geniais da divertida Happy Bicycle.

to be continued ;-)