A cidade parece iluminar-se a partir do seu interior mais secreto, onde lateja um coração muito antigo. Lisboa transforma-se, assim, no lugar privilegiado para a invenção da escrita. Nesse lugar me movimento e me encontro, e nele me perco em travessias.

Um escritorio com vista sobre a cidadePin it
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Foi na companhia deste pensamento de Al Berto, que tive o privilégio de escrever num escritório com vista sobre a cidade. Depois do sucesso do evento do ano passado – D. Pedro V está vivo – realizado também em Novembro, a segunda edição do evento, este ano com o nome de Príncipe Real Live, teve muito mais força e maior dimensão juntando-se à Rua D. Pedro V, a Praça do Príncipe Real, a Rua da Escola Politécnica e algumas artérias deste eixo principal. Durante quatro dias foram os muitos eventos, a música ao vivo, a ópera nas ruas e nas janelas dos prédios cor de gelado, as degustações, as exposições de arte, de design, de joalharia, de peças de autor, de moda, os workshops de danças argentinas, indianas ou mesmo de make-up e festas pela noite dentro em moradas improváveis, como aconteceu na agência de publicidade Uzina. Promovida pelo Príncipe Real Project do Eastbanc, todas as lojas envolvidas estiveram abertas das dez da manhã às onze da noite e a animação foi constante. O meu escritório vivo numa das lojas mais exuberantes de Lisboa, o florista Em nome da Rosa, contou com a cumplicidade de parceiros que escolhi a dedo, para fazer o sonho acontecer. Os poemas mais cúmplices pendurados num candeeiro Ingo Mauer da Domo, uma secretária vintage da Arquiloja, sempre pela simplicidade luminosa de Mercedes Seco, a cadeira Charles & Ray Eames, Vitra da Paris-Sete, uma fulgurante caneta da Montblanc, uma vela de Fréseas da Diptique do Epicurista que acendeu também a sensibilidade dos dias, a companhia da marca que elogia as cidades, a inconfundível Nespresso e a bebida mais poético de sempre, o champagne Perrier Jouët. Ainda a BCBG Max Arzia, a Max & Co, e a Niu Sistemas, que sobre a transparência permitiu a partilha das palavras do poeta.

Em nome da experiência, não hesitei em nomear um excerto do texto “Lisboa, Regresso” de Al Berto, do livro “O Anjo Mudo”. Meu guia desde que me propus a partilhar e a escrever a minha cidade, o anjo, em silêncio, acompanha-me nas palavras mais inteiras. E por sedução ou esquecimento vejo-me por momentos a percorrer um caminho que me faz estar hoje a escrever estas palavras. E se os dias foram vividos e pensados intensamente, quase como um poema, passados quase quatro anos desde que cheguei a Lisboa, para recomeçar a linha mais pura da vida, a viagem ao passado confirma-me a perseverança.

Nos dias distantes, Amesterdão e Atenas deram-me outra visão de cidade, mais intacta e mais consciente do que poderia ser a minha Lisboa aos olhos do Mundo: e se escrevo quase que por acidente, acredito hoje que a morada que hoje habito é um lugar de paixão absoluta, onde o acaso não existe.

Nas horas em que troquei o meu andar flutuante – como o movimento silencioso das algas, o andar oceânico, pelo escritório privilegiado, o perfume da loja e a presença inconfundível do Maurício – que faz acontecer as montras mais originais da cidade – estendem-me à grandiosidade da entrega. As páginas da Lisboa partilhada nas paredes laterais da montra, os poemas suspensos, os livros mais elevados da minha biblioteca e a certeza de um Anjo Mudo conduziam-me ao cenário mais transcendental de todos: o privilégio de observar e recolher inspiração no movimento dos viajantes que passavam. E na intensidade dos dias, tenho humildade suficiente para saber que não será possível partilhar todos os sentimentos elevados. Por momentos recordo as fotografias de Robert Doisneau e as deliciosas reacções à exibição de uma pele nua feminina, na montra de uma loja de onde fotografava. Confirmo o feminino, mas quanto à nudez, apenas o da despoluição das imagens que hoje guardo na memória, como um tesouro. As reacções surpreendentes, os sorrisos tristes, os sonhadores de sorriso rasgado, os viajantes que voltavam atrás, os que paravam para contemplar, os que absorviam os poemas de Al Berto, os que se orgulhavam da nossa cidade, os que se colavam à montra e tinham coragem para alcançar mais do que apenas um sorriso ou um olhar. As crianças perdidas que colavam as mãos na parede transparente, os homens que se reconciliavam com os amigos perdidos, ou os que no regresso a Lisboa voltavam mais um dia, para ousar descobrir uma cidade na ponta dos dedos.

No cenário, um fantasma que inundava as ruas de ópera e destino, com a certeza de que há homens com quem se pode aprender aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos. E no registo dos dias claros, todos os que seguiam o movimento deslocavam-se como se fossem sombras, e no coração, sempre, a euforia de quem viaja.Na viagem da memória emocionei-me várias vezes por ver Lisboa acontecer nestes últimos anos. E abraçando todos os dias a missão de a enaltecer, abraço de novo as palavras de um poeta que escreveu o viajante sem sono: sobre os enigmas singulares, a claridade que juro conservar, a beleza de que levarei anos a esquecer alguém que apenas nos olhou.

No cenário de uma cidade imaginada, quantos seriam os viajantes que perseguiriam a luminosidade. Na continuidade que uma cidade visível que será sempre feita de pessoas, o desejo livre de uma capital europeia cada vez mais brilhante, onde cada um fará a diferença. A ousadia de ultrapassar a palavra futuro, num dia que deverá ser sempre mais, do que mais um dia. Por isso na senda mais profunda do que nos move, as palavras mais certas, e se nos calássemos está tudo por acontecer.

crónica publicada em Dezembro de 2009 na revista Fora de Série

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