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‘A vida é uma maratona’. Quem o diz é a futura primeira-dama da banca inglesa, Ana Horta Osório – casada com o recentemente nomeado CEO do Lloyd’s Bank António Horta Osório –, maratonista nas maiores cidades do mundo e fundadora de um dos mais conceituados spas do país, o Spatitude. Com um serviço integrado e a pensar na auto-estima dos portugueses, um valor que reconhece como essencial à felicidade de uma vida, que passada entre Lisboa e Londres nada mais é do que uma maratona para a qual “é melhor estar preparado”.
Há quanto tempo é que a Ana vive fora de Portugal?
Há quatro anos e meio, mas antes disso já mudamos sete vezes entre cinco países diferentes.

Como gere a vida entre Londres e Lisboa?
É preciso ser muito organizada e estar em boa forma física. Tenho também uma excelente equipa no Spatitude que me permite ter as portas abertas sete dias por semana, doze horas por dia. Só fechamos três dias por ano, no dia de Natal, no primeiro dia do ano e no Domingo de Páscoa.

É um privilégio viver entre as duas cidades?
Sim porque aproveito o que cada uma tem de melhor… em Portugal temos a família, os amigos, um clima e uma gastronomia óptima e a simpatia. Em Londres temos o rigor, a transparência, a organização.

Samuel Johnson dizia que “quando um homem está farto de Londres está farto da vida”. Sente-se mais viva em Londres?
A vida é intensa, mas mais calma porque é tudo mais organizado, por isso, ao contrário dos países latinos, vive-se com menos imprevistos.

Tem algum truque para sobreviver bem num país com tão pouca luz?
Vir a Lisboa de duas em duas semana (risos) e quando em Londres não pensar muito na falta dela.

Há algum lugar onde a Ana se eleve em Londres?
A correr nos parques… o meu preferido é o Richmond Park.

É um privilégio ver os seus filhos a crescer numa cidade onde “o mundo é a nossa casa”?
Sim é uma sorte e um privilégio estarem em contacto com tantas nacionalidades, religiões e experiências de vida diferentes.

Mas sei que a Ana e o António, seu marido, não acreditam na sorte…
A sorte dá muito trabalho. (risos) É uma mistura de oportunidade com preparação.

Tem um filho nascido em Nova Iorque, outro em Portugal e outro no Brasil. Está a treinar os seus filhos para serem cidadãos do mundo?
Sim e nem é preciso explicar-lhes o que é a globalização.

É importante passar-lhes o testemunho de que para o sucesso deve fazer-se o que se gosta?
Sim é fundamental fazer o que nos inspira e o que nos motiva. É impossível fazer-se bem o que não se gosta. Eles observam a minha inspiração e o meu empenho no Spatitude. A grande diferença da farmácia (antes de ter o spa tinha uma farmácia) é que este projecto é mais arriscado, mas permite-me mais criatividade. Também foi muito gratificante criar um projecto desde o início.

Quando diz que o risco é maior, a que se refere?
A farmácia é um negócio mais certo, é seguro que as pessoas precisam de comprar medicamentos. O Spatitude é um projecto que tem de agradar aos clientes. É preciso de ir ao encontro de necessidades.

Custou-lhe abandonar a carreira de farmacêutica para viver fora de Portugal?
A prioridade da minha vida é a minha família, apoiar o meu marido e a educação dos meus filhos. Sendo a família a prioridade, vou tentando conjugá-la com a minha actividade profissional. Tendo estado em tantos países, gerir uma farmácia era mais complicado. O Spatitude permite-me mais flexibilidade e tento conjugar tudo o melhor que posso, mas a família é e sempre será o mais importante de tudo.

Mas a farmácia acaba por ser muito importante para o nascimento do spa.
Sim principalmente na selecção dos produtos e dos tratamentos. A parte técnica da saúde está muito presente e ajuda-me a ver sempre a pessoa como um todo.

O spa nasceu de um sonho concretizado ou foi uma oportunidade?
Eu abri o Spatitude em 2004, quando não havia nenhum spa em Lisboa.

Os portugueses gostam de se mimar?
Sim e os clientes evoluíram muito rapidamente, tornando-se cada vez mais exigentes.

Porquê o nome Spatitude?
Porque eu gosto de uma atitude de bem-estar perante a vida, uma atitude onde haja espaço para relaxar, centrar, parar, equilibrar…

O Spatitude tem uma grande inspiração tailandesa porquê?
A Tailândia é uma inspiração, porque a Ásia tem grande tradição das massagens de relaxamento aliado a um serviço espectacular.

Mas a inspiração veio de uma viagem?
A inspiração tem a ver com o facto de eu ser farmacêutica e estar interessada no bem-estar das pessoas. Quanto tinha a farmácia e senti uma certa incapacidade de resposta da medicina tradicional nas doenças da civilização, como as insónias, a ansiedade e o ‘stress’. Entre os pacientes que regressavam para comprar mais medicamentos, as viagens e a minha experiência pessoal a lidar com as pessoas, concluí que é obrigatório parar e repensar uma vida que hoje em dia é muito acelerada e cheia de ‘stress’. Quando pensei abrir o Spatitude fui nessa direcção. A massagem é um ritual que nos faz parar, desligar do frenesim e o ginásio é um complemento porque, além da nutrição, o exercício físico é o relaxamento aliado à beleza. O bem-estar assume um conceito integrado no Spatitude. Também por uma economia de tempo, uma economia financeira e porque numa vida em que o tempo é escasso, se a pessoa conseguir fazer tudo no mesmo sítio facilitamos a sua vida.

O que a inspira na Ásia?
A tranquilidade, a doçura, o sorriso, o serviço onde o cliente é sempre o mais importante. Ainda a importância de que depois da experiência o cliente saia transformado e volte à cidade equilibrado e pleno de energia. Dessa inspiração, o Spatitude tem como missão o encontro do cliente com o equilíbrio, seja através do Ritual das Águas, seja através das massagens, do desporto, da consulta de nutrição, ou da meditação.

Mas cada caso é um caso?
Sim, cada cliente é único e individual e nós procuramos sempre o programa ideal para cada pessoa. Os nossos clientes têm no início uma consulta de naturopatia para um diagnóstico orientado para os tratamentos que deve seguir e uma consulta com o director técnico do ginásio, o qual estuda o melhor programa de treino. Faz toda a diferença treinar acompanhado e o relaxamento é um complemento que alinha a sintonia com o próprio corpo, vitalizando forças para o ritmo de vida. A vida é uma maratona e é melhor estar preparado para ela.

Houve alguma razão específica para escolher o ‘designer’ de interiores Bruno Viterbo?
Sim, porque já conhecia o trabalho da Graça Viterbo e porque o Bruno é especialista em spas.

Além da Tailândia viajou de propósito para outros países para conceber o spa?
Não. Fui apenas às Filipinas a um congresso de spas asiático. Mas como viajo bastante aproveito sempre para experimentar novos tratamentos e conhecer os spas do mundo. Procuro sempre ver o que de melhor se faz lá fora, para ter a certeza que o Spatitude acompanha a excelência.

São setecentos metros de paraíso no meio da cidade… é um espaço ambicioso?
Para ter um espaço integrado com o ginásio, piscina, zona de relaxamento, salas de tratamento, tinha de haver espaço para diferenciar as diferentes ambientes.

Foi um grande investimento?
Sempre achei que Lisboa merecia ter um spa de nível mundial e foi com imensa alegria que investi no meu país. Estive em Nova Iorque em Novembro passado e fui a quatro spas diferentes e o que de melhor se faz lá fora também se faz aqui. Não consigo recriar o ambiente das Maldivas, mas para um ‘day spa’ acredito que não é possível criar um espaço melhor que este. Qual o ponto de excelência do Spatitude? A qualidade é a minha maior preocupação e o criar um ambiente onde a pessoa se sinta transportada para uma atmosfera muito relaxante, em que possa parar, respirar profundamente voltando aos seus ciclos naturais. Gosto da ideia que numa hora sinta que recarregou as baterias para voltar a enfrentar a cidade.

Excelência na qualidade, mas com bons preços. Como se consegue?
Com uma enorme atenção aos custos, sem nunca perder o serviço de elevada qualidade. Sempre achei que o bem-estar tem de ser acessível.

Há um forte conceito de fitness no Spatitude…
Sim porque acredito que o que mantém a pessoa jovem é o exercício físico. Até para ter um bom rendimento profissional é essencial não apenas comer bem e dormir bem. O exercício físico é fundamental.

O ambiente é muito reservado. Há muitas pessoas à procura da privacidade?
Sim. As pessoas que vêm aqui para treinar, não para fazer amigos e encontrar pessoas. Vêm com o tempo contado ao minuto, à procura de um serviço ‘taylor made’ com muita flexibilidade de horários e procurando através de treino personalizado atingir resultados mais rápidos.

E há mimos como o serviço de lavandaria, em que o cliente deixa o equipamento e quando regressa está tudo lavado e engomado pronto para outro treino.
Sim, achei importante porque as pessoas têm pouco tempo e é muito conveniente que não se preocupem com o transportar e lavar o equipamento. De um treino para o outro, deixam cá os ténis e a roupa usada, a qual estará pronta a usar no treino seguinte. Ou seja, no fundo o que fazemos é facilitar a vida dos clientes numa vida que é complicada.

O cliente sempre como missão?
Sim, porque estamos no centro da cidade em termos de escritórios e eu sempre quis ter um spa o mais ‘user friendly’ possível. Para ajudar o cliente a organizar o seu tempo e para não haver desculpas, o Spatitude pensa em tudo. Desde tratar do equipamento para o treino seguinte, preparar um pequeno-almoço antes do treino, um almoço para depois… só falta mesmo apertarmos os ténis (risos).

Como faz a escolha dos produtos utilizados no Spatitude?
Sou muito rigorosa na selecção. São todos orgânicos, de extrema qualidade e que se enquadrem na nossa filosofia com inspiração ayurvédica. Como os chás de Pukka ou os produtos da Mama Mio, uma marca biológica americana de que gosto muito. Tem a ver com as mulheres e com produtos fundamentais para os três trimestres da gravidez com tratamentos específicos e que ajudam também na recuperação pós parto. Tem também tratamentos específicos localizados para tonificação, recuperar firmeza e reduzir gordura localizada, com uma filosofia muito positiva, pedagógica e com grande humor.

E escolheu a Avenida 5 de Outubro por alguma razão?
A minha farmácia era na Avenida Duque D’Ávila. É o centro da cidade e durante quatro anos tive os dois negócios e também se deveu à proximidade para poder estar presente nos dois espaços.
Acredita no poder da mente?
Sim.

Foi por isso que depois de ter fumado dezoito anos, se tornou maratonista aos quarenta anos?
Sim, a força de acreditar de que que sou capaz. A força de vontade move montanhas. A Ana sempre foi uma desportista?
Sempre fiz ginástica mas à medida que o tempo foi passando fui-me consciencializando da necessidade de aumentar a quantidade de exercício que faço para me sentir igualmente bem.

Qual a maior razão para se impor a esses objectivos, como fazer a maratona de Nova Iorque?
Fui muito influenciada por amigas minhas a viver no Brasil e aos quarenta anos decidi que tinha chegado o momento. Se a pessoa acreditar que é capaz consegue tudo na vida.

O exercício físico é só o princípio?
Sim, dormir bem, comer bem e cuidarmos de nós é fundamental.

A Ana tem algum segredo para a sua juventude?
O equilíbrio é importante, mas como corredora sou disciplinada e estou sempre a querer melhorar.

Pode partilhar as mais elevadas tentações?
Sim, ‘macarrons’ da Ladurée e doces de ovos em dias de festa (risos).

Acha que alimentação é importante para o alinhamento energético? Sem dúvida, somos o que comemos. O açúcar, por exemplo, é cancerígeno, pois tem um efeito inflamatório no nosso corpo e em todas as nossas defesas. Com o excesso de açúcar no nosso organismo, o sistema imunitário em vez de estar a combater a células que se estão a tornar cancerosas, pelas pequenas transformações no material genético devido a poluição, ao sol, ao ‘stress’, estão ocupadas a tratar da inflamação que os açúcares provocam, sobrecarregando assim o nosso organismo. Devemos fazer uma alimentação saudável, a menos transformada possível, ou seja, o mais simples e próximo da natureza. O nosso património genético não foi feito para acompanhar esta alimentação pós-segunda guerra mundial, com comidas congeladas e industrializadas.

Mima-se muito, usa o seu spa?
Para mim é muito difícil relaxar no meu local de trabalho, estou sempre a analisar tudo e a pensar nos detalhes e pormenores. Sou muito perfeccionista e muito exigente com a minha equipa, assim como sou comigo. Mas sempre que viajo aproveito para experimentar novos spas, com a desculpa que estou a estudar a concorrência… Além da corrida faz mais algum tipo de exercício?
Sim. Pilates e Ioga, acompanhado de massagens desportivas.

Correr é um acto de liberdade?
Sim, é um Ioga mental, um tempo só para mim, onde arrumo a cabeça, elimino o ‘stress’ e arrumo as ideias. No esforço das provas, a dor passa mas o orgulho fica.

Qual a grande motivação das maratonas?
Sentir-me bem e fazer sempre melhor. Aos quarenta anos e para provar a frase que diz que “a vida começa aos quarenta” (risos), comecei a preparar-me para a maratona de Nova Iorque.

E acabou a maratona?
Sim, em cinco horas e um quarto.

Custou-lhe muito?
Sim porque era uma experiência nova, o corpo nunca tinha corrido quarenta e dois quilómetros seguidos… era um mundo novo.

Durante a corrida pensou em desistir?
Não, nunca. Em treze maratonas nunca desisti. Por muito que treine, nada me garante que estarei no meu pico de forma e as condições climatéricas podem condicionar negativamente a corrida, mas a não ser por uma razão de saúde, desistir está fora de questão para mim. Com os nossos erros também aprendemos e há maratonas que não correm tão bem porque ou não treinámos o suficiente ou porque não treinámos a correr à velocidade suposta, mas aprendemos sempre. Quando comecei a correr, dizia que não corria à chuva e na primeira maratona de Londres choveu o tempo todo, corri ensopada a escorrer água e aprendi que nunca mais iria deixar de correr por estar a chover. É importante treinar o corpo para qualquer condição climatérica, porque as maratonas muito raramente são canceladas devido as condições meteorológicas…

Somos do tamanho da nossa vontade?
Sim. Se eu corri uma maratona qualquer pessoa pode correr. A maratona não é o bicho papão que a pessoa pensa. Está ao alcance de todas as pessoas… é apenas uma questão de treino. Não é nada de extraordinário. A primeira maratona é dolorosa, mas depois sentimo-nos tão bem por ter conseguido. Costumo compará-la à dor de parto, na altura custa muito mas passado uma semana já nos imaginamos a ter outro filho.

O que lhe dá mais gozo nas maratonas?
Escolher e cumprir o plano de treinos e ver que, com todas as dificuldades da vida, mesmo quando há jantares ou quando não me apetece treinar é importante seguir esse plano de treinos escolhido. Costumo dizer que os maratonistas não têm estados de alma, o que exige uma disciplina muito importante da nossa vida. A preparação de uma maratona faz com que a pessoa tenha uma auto-disciplina, para não fazer apenas quando lhe apetece ou quando o tempo permite. É um bom treino de vida.

É por isso que os atletas são à partida mais bem sucedidos a nível profissional?
Sim porque se preparam muito e isso é fundamental para tudo, para os desafios da vida, sejam eles quais forem.

E a maior dificuldade?
São sempre os últimos doze quilómetros. Costuma-se dizer que aos trinta e cinco quilómetros aparece a chama ‘parede’. Depois dos trinta, a cabeça tem de enganar o corpo. É um jogo mental, onde penso: “foi para isto que eu treinei” e a música é muito inspiradora. Viver o momento, pensar em tudo o que treinámos para estar ali, que está a custar mas que somos abençoados por sermos saudáveis e reconhecer o privilégio de ter saúde, de ter duas pernas e de poder correr. Ajuda-me muito saber que posso estar ali a correr e a fazer aquela prova. É um privilégio ter acesso e consciência do que é uma vida saudável.

E que músicas ouve?
Muito animadas… uma verdadeira discoteca. Até os trinta quilómetros estou a absorver a maratona, o ambiente, a analisar as multidões que nos estão a ver, a vibração das pessoas a correr, a energia impressionante.

Qual a maratona que lhe deu mais gozo?
A maratona de Nova Iorque, porque a cidade é especial e é muito bem organizada. À partida da base militar de Staten Island ouvimos primeiro um gospel, depois o som dos canhões e arrancamos com a voz de Frank Sinatra a cantar ‘New York, New York’. Atravessarmos a subir a ponte de duas milhas com Manhanttan ao fundo é impressionante. Eu gosto de grandes maratonas pela experiência humana. Costuma-se de dizer que não se pode morrer sem escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore. Eu acrescento-lhe fazer uma maratona, porque é uma experiência inesquecível. Qual o seu melhor tempo?
Três horas e quarenta e nove em Berlim.

Quando acaba a maratona qual a sensação?
A recompensa do trabalho, ter conseguido e uma enorme sensação de leveza e felicidade.

Quantas vezes treina por semana? Entre quatro e cinco vezes por semana, com treinos entre quarenta minutos e três horas, faça frio, sol ou chuva… e neve também.

Qual o melhor cúmplice?
A música e a companhia.

Qual a melhor recompensa?
O duche (risos), mas eu corro para estar em forma. Dá-me uma grande sensação de ‘achievement’.

Quem corre por gosto não cansa?
Cansa-se!… mas aprende a gostar do cansaço.

E o António, apoia as suas maratonas?
Sim, vai sempre assistir e para mim e fundamental sentir, naqueles últimos quilómetros, que ele esta lá!

A serenidade da Ana lembra-me um quadro de Johannes Vermeer. Identifica-se com essa jovialidade?
Sim é fundamental manter algo de criança em nós. Uma coisa que adoro nos meus treinos de corrida diários é sentir a sensação do vento na cara. É rejuvenescedor.

A frase que abre o site do Spatitude é de Henry David Thoureau e diz: “Siga com confiança a direcção dos sonhos seus sonhos. Viva a vida que imaginou”… a Ana tem a vida que imaginou?
Tenho.

entrevista publicada a 5 de Fevereiro de 2011na revista Fora de Série do Diário Económico