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Numa homenagem às dádivas do Atlântico
Na calçada onde há espaço para mais estrelas, o Kampai (em português ‘à nossa’) anda a tornar Lisboa mais cadente. Numa homenagem às dádivas do Atlântico, o novo restaurante japonês eleva-se ao capricho de servir peixe apanhado nas águas do Açores. O empenho da distância estende-se também à raridade das espécies por terras continentais, através do atum selvagem, o veja, o peixão, a lula gigante, abrótea, ou o lírio. Já apelidada como cantina de eleição dos que todos os dias trabalham na Assembleia da República, a qualidade dos peixes movem lisboetas de todas as colinas. E se a simpatia de quem nos serve me deixou vontade de voltar muitas vezes, a mestria do chefe João Soeiro – com um percurso que passou pelo Assuka ou pelo aclamado Aya  – confirma a excelência dos sushi’s da cidade. Nas minhas escolhas partilho os temakis tradicionais longe de queijos cremes, o sashimi de lírio Hammachi, ou o surpreendente e saboroso prato especial Oyakudon (frango com camarão, legumes e ovos sobre um delicioso arroz japonês). A cereja do fim do bolo vem em forma de chá verde (matcha) na opção rara de poder ser acompanhado de aveludado feijão azuki. Na impossibilidade da perfeição o Kampai não se eleva na assertividade da iluminação do espaço, que peca pela luz a mais num ambiente que ganharia bastante umas quantas velas sobre as mesas. E enquanto lanço o desafio de um reóstato para um pormenor fulcral à perfeição numa sala de jantar da minha Lisboa, retenho-me no amarelo viajante dos eléctricos que lá foram acompanhavam a cidade.
Kampai
Calçada da Estrela, 37 Lisboa
Tel. 213 971 214
www.kampai.pt

Pela sombra das árvores
Digno das ruas do eléctrico 28, uma antiga loja de balanças honra a magnificência da lateral esquerda da Sé de Lisboa. Bonito de dia, mas elevadamente cénico à noite quando as luzes das ruas da cidade se espelham no reflexo das paredes douradas, o Cruzes Credo Café acompanha os ritmos no dia na opção de pequenos-almoços, refeições leves, lanches ou petiscos sem hora. Mais do que qualquer crítica gastronómica – pretensão que nunca tive por estas linhas, já que o me move é a energia das cidades – agradeço aos quatro amigos que se lembraram de salvar o espaço abandonado, com a responsabilidade de um contributo valioso na dinâmica que oferecem às ruas da Sé de Lisboa. Para experimentar o já famoso hambúrguer, a ardósia na parede oferece escolhas despretensiosas: pastelaria portuguesa, bolos caseiros à fatia, saladas, tostas ou petiscos. Qualquer que seja o pedido possível apenas no balcão, o privilégio da beleza estende-se nos interiores cénicos dignos de um filme de Wong Kar Way: candeeiros de luz ténue, janelas de guilhotina, e um chão recuperado que inundam de orgulho os passos mais sólidos. E enquanto a noite cai numa longa tarde estival, a fusão da morada onde não há espaço para sacrifícios, estende-se ainda a uma esplanada, onde envolvida pela sombra das árvores soltam cruzes sem pecado.
Cruzes Credo Café
Cruzes da Sé, 29
Alfama, Lisboa

A Paragem Contínua
Com todo o fascínio que os cais das estações têm na minha vida, o Clube Ferroviário é mais uma carta alta de Mikas, o homem a quem esta cidade deveria dar uma medalha pelo que fez pela Bica. Num terraço que abraça o Tejo há bebidas em noites quentes, petiscos servidos pelo Magnólia, com a sabedoria que para fazer bem nesta cidade basta não mexer muito. Depois vêm as pessoas e nesta paragem obrigatória, limito-me a agradecer por provocarem não apenas noites dançantes numa morada que apaixonou o Verão de Lisboa, mas também o estímulo do ‘drink after business’ de que esta cidade tanto precisa.
Clube Ferroviário
Rua de Santa Apolónia nº 59, Lisbon
Tel. 21 815 31 96 (a partir das 17h)

crónica ‘Pelas ruas da cidade’ publicada na edição de Novembro de 2010 na GQ