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De uma humildade rara, o chefe Nuno Mendes não pára de ser aclamado pela imprensa britânica. No seguimento do The Loft Project, um projecto onde o chefe abre as portas da sua cozinha e senta os convidados desconhecidos na mesma mesa, surge o Viajante, um restaurante onde é importante viver as emoções. Convidámos Sancha Trindade em Londres, a trocar algumas palavras com um dos mais emblemáticos chefes portugueses no Mundo.

Viajante porquê?
Foi um nome que dei a mim próprio por ser um viajante. Por nascer e viver em Portugal mas por ter partido no mundo. Vivi em cinco cidades diferentes dos Estados Unidos, Ásia, Espanha…
E Londres?
Era uma cidade grande onde eu queria muito viver. Depois de Nova Iorque quis voltar para a Europa e achei que pela língua inglesa, pelo cosmopolitismo e por Londres ser uma cidade aberta ao Mundo. Sinto-me mais bem enquadrado aqui.
O Nuno disse um dia que ‘Há quem pinte, quem faça escultura, eu cozinho.’ A sua cozinha é uma elevada forma de arte?
A cozinha chega com a minha bagagem as minhas memórias e experiencias e é baseada em mim, no que eu vivi.
Um viajante com uma mala de memórias. Sente-se essa influência nos seus pratos?
Sim. Viver o viajante é uma viagem. Eu conto histórias. Histórias de onde estive e para onde vou. Até a maneira como a sala está apresentada.
Há uma atmosfera escandinava…
Sim eu queria um ambiente aberto à experiencia de intimidade. De uma maneira diferente há uma certa continuidade do meu outro projecto o The Loft Project onde todos os clientes partilham a mesma mesa.
O The Loft Project nasceu primeiro?
Sim. E ainda antes disso estive no Bacchus. O planeamento do Viajante já tinha a ver com esta ideia de intimidade. Queria um restaurante que tivesse a ideia de estar em casa, de se sentir as emoções e não ser apenas uma sala de jantar.
E o espaço do The Loft Project foi uma oportunidade?
Sim. Procurei muito e encontrei. É o projecto mais bonito que fiz até hoje. É uma cozinha caseira, é o chefe abrir as portas da sua casa e partilhar a sua cozinha.
Li que o Nuno gosta de ‘criar emoções na boca dos clientes’…
É o que dizem os críticos (risos). Eu gosto das pessoas e a minha cozinha não é apenas a estética. Não se traduz apenas no prato. Eu gosto que quando a pessoa consome tenha o momento mais elevado. É no acto da prova que quero criar as emoções.
A imprensa britânica arriscou classificar o restaurante como, ‘o novo Santo Graal’. Estava à espera deste sucesso?
Não estava. Este é um restaurante especial. As pessoas não vêm cá para verem e serem vistos. Vêm para viajar, vêm para comungar sensações.
Que palavra mais descreve o Viajante?
Emocão.
Abriu o seu restaurante nas vésperas do dia do trabalhador. O sucesso deve-se ao trabalho?
Sim. Muito trabalho. É impossível para mim não fazer o que sei que devo fazer.
Um bicho-carpinteiro e não é capaz de ficar muito tempo no mesmo sítio, escreveu a imprensa sobre si. Já imagina novos projectos?
Estou associado a este projecto há três anos tempo em que começou a ser imaginado. Claro que há projectos que ainda gostava de realizar.
Como um livro?
Eu sou um viajante mas não tenho ainda conteúdo suficiente. Eu acabei de chegar…
Está há quanto tempo em Londres?
Seis anos. Cheguei agora (risos) e ainda tenho muito para mostrar.
Veio dos Estados Unidos…
Sim e estive em são Francisco, Nova Iorque, Los Angeles, Miami e Santa Fé.
Que cidade preferiu?
Adorei Nova Iorque, São Francisco e tenho um amor muito especial por Santa Fé.
É um homem de fé?
Sim fé nas coisas. Sou muito sonhador. Não tenho os pés tão fundos na terra como devia ter, mas sei que o sonho leva-me sempre mais longe.
Como se inspira um viajante em Londres? É um viajante sem sair na cidade?
Sim é uma inspiração enorme. Londres é uma cidade de viajantes. Londres tem energia, tem transversalidade. Tem o velho, tem o novo e é um ponto fácil de passagem para muitos lugares do mundo. Tem uma grande comunidade, tanta gente de tantos sítios. E estamos na Europa.
Qual foi a decisão mais certa que tomou na sua vida?
Foi ter deixado Portugal e ter partido à procura dos meus sonhos. Quando partimos temos mil possibilidades à nossa frente.
Onde encontra os seus maiores momentos de liberdade?
Profissional em Londres, pessoal na Índia.
Já deu alguma volta de 180º?
Dentro da minha vida vivi já muitas vidas. As memórias ficam e cada sítio que deixei foi uma vida que deixei para trás. Além das experiências não trouxe muito mais comigo.
Para se gerir uma equipa assim é importante ser frontal?
Sim. Quero que aprendam e como família eu também aprendo. Esta também é uma família. Aqui no viajante há uma relação muito pessoal. É aqui que me sinto bem e sei que as pessoas quando chegam aqui sentem a amizade.
Há um grande sentido de fraternidade?
Sim. Muito grande.
Onde vive os seus momentos mais ‘chivalry’?
Em East London. É a minha cidade e é a cidade que acredito. E está cheio de pessoas que me inspiram.
Que sentimento tem em relação a Lisboa?
Tem potencial para ser uma das melhores do mundo. É uma das mais bonitas onde já vivi até hoje. Foi de lá que partiu o viajante.