Londres IPin it

O Anjo Mudo de Al Berto ensinou-me que a pouco e pouco nenhum viajante vê o que os outros viajantes veem, o olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro. Retenho-me sempre nas suas páginas imaculadas que tanto inspiram as minhas pontas dos dedos. Na véspera da minha partida para Londres encontro-me com um dos meus amigos viajantes e enquanto partilho livros e planos com a mesa do café, trocamos palavras. Na partilha de todas as cidades do mundo, que viajam pelas ruas de Lisboa comovo-me com as histórias do Alfaiate Lisboeta. Lisboa deve-lhe muito. E no momento em que me tira esta fotografia retenho-me de novo nas palavras do poeta, viajamos para confirmar a existência do mundo.

Apanho um táxi para o aeroporto e agradeço o privilégio de apanhar um verde e preto. Ainda imagino ser transportada pela cidade pelas mãos de John Malkovich, mas fico aliviada por saber que estou bastante viva e que não me vão roubar qualquer Volluto. Abandono a cidade com a música do rádio, ‘a gente da minha terra’ e aprecio as mensagens de uma partida. Não acredito num destino que me amarra e por mais que me seja negado, prefiro prender-me sempre às cordas de uma guitarra. Minutos antes da descolagem demorada, a espera conversa comigo e por momentos a minha cidade faz-me prometer um bilhete com regresso. Londres é uma cidade fascinante e na travessia do ar, abraçada às palavras de Virginia Woolf também eu iria escrever sobre Londres. E hoje, enquanto vos escrevo estas palavras, sei que esta cidade se apoderou da minha vida privada e a transporta nos dias de hoje sem esforço. ‘Os rostos passam e reanimam-me o espírito’.

São muitos os viajantes com que me cruzo. Seres humanos que me mostram uma Londres que se estende numa das maiores obras de design de sempre, o mapa do metro londrino. As distâncias são grandes e na companhia de um livro que me mostra a Londres fragmentada de Rϋdiger Görner, confirmo as palavras de Samuel Johnson: quando um homem está farto de Londres está farto da vida. As suas palavras do século XVIII movem-se atuais e enquanto a carruagem volta a partir, com rostos de todas as nacionalidades sinto-me tentada a procurar as personagens aladas das Asas do Desejo de Wim Wenders. Na procura da grandiosidade dos seres humanos sou surpreendida por um dos mais internacionalmente reconhecidos chefes portugueses do momento. Nuno Mendes abandonou Portugal há muitos anos e depois de moradas como os Estados Unidos, Ásia e Espanha, encontra em Londres uma cidade transversal e estimulante. Partilha-me com uma elevada humildade a surpresa com que é mimado pela impressa britânica. Nas suas duas casas de jantar, as mesas são grandes e partilham-se de formas diferentes. No The Loft Project Nuno e Clarisse recebem chefes convidados e clientes, numa mesa única para viver com o desconhecido. O ambiente é de partilha e ao ficar sentada ao lado da primeira mulher árabe a pisar o Polo Norte reconcilio-me com a minha estadia nos Emirados Árabes Unidos. Elham Al-Qasimi traz nos olhos a ternura que nunca encontrei naquelas terras de deserto. Na mesa comprida a missão de Nuno Mendes ganha ainda mais valor quando dou por mim a reconhecer os outros viajantes do mundo. Esta não é apenas uma sala de jantar, é uma mesa onde no sorriso do encontro se vivem emoções. São muito os pratos de degustação acompanhados de vinhos diferentes e há uma forte ligação à natureza. Memorizo o lombo cozinhado lentamente com caramelo, cogumelos silvestres e amoras pretas e a suavidade com que o promissor Alex Mckechnie nos oferece o cocktail mais original que alguma vez provei. Uma mistura de uísque, granitado de chá, café e chocolate servido num vaso de barro e que se confundia com a simplicidade de uma planta num jardim.

No restaurante Viajante, inserido no Town Hall Hotel em East London, Nuno Mendes continua a extensão de uma sala de jantar íntima e o seu talento é vivido com o testemunho de todas as suas memórias e experiências. Com uma cozinha aberta para a sala, as formas e cores escandinavas misturam-se com a generosidade de uma experiência que faz questão de repartir com a equipa de cozinheiros que se movem no palco. ‘Se não repartimos não crescemos’ diz com a mesma suavidade que explica todos os pratos que faz questão de trazer à mesa. A sua cozinha cria emoções. Sensações únicas acompanhadas com vinhos de todo o mundo, onde destaco a qualidade dos ingredientes, os sabores originais servidos em loiça feita à mão por amigos.

Em apenas setes dias ‘as a Londoner’ lembro-me de novo do café onde iniciei esta viagem. São muitas emoções, encontros e experiências que me lembram a ideia de por o Rossio na Betesga destas duas páginas. Ainda não entrei em todas as livrarias, mas sinto-me a desfrutar de uma biblioteca. E nestes dias brancos, onde recordo com a pura neve as páginas de Almada Negreiros, conto os livros que ainda tenho para ler e os dias que ainda terei até ao Natal. Não chegam, não duram nem para uma prateleira da livraria. Mas haverá – tenho a certeza – outras maneiras de me salvar, senão estarei perdida.

The Wolseley
As viagens iniciam-se sempre antes de partirmos. A poucos dias de Londres partilhava a nossa Taberna Ideal com um amigo inglês, com estudos no nobre colégio de Eton. Prometi-lhe o meu primeiro pequeno-almoço no The Wolseley. ‘As refeições mudam com o tempo, com o clima, com a geografia mas o pequeno-almoço continua a ser um ponto constante no mundo. É uma das poucas coisas que é nossa, mas que é também de qualquer outra pessoa’. E tal como imaginava, no primeiro momento de luz, assisti ao encontro dos que se comprometem a viver com muita alegria um novo dia. Não tive coragem para o famoso English Breakfast guarnecido de ovos, bacon, ‘pudding’, tomate, cogumelos e feijões, mas estendi-me aos melhores ‘Eggs Benedict’ que alguma vez provei e as umas ameixas marinadas em laranja e gengibre. E embora este café restaurante exista há poucos anos, o The Wolseley não é um pastiche, mas uma evolução magnífica de um stand de automóveis e de um de um banco. Hoje revela-se como uma das moradas mais sofisticadas de Londres, numa cidade onde sorrisos rasgados privilegiam reuniões de negócios e encontros à volta de uma mesa.

Tate Modern l Gauguin Maker or Mith
Por ser um dos meus museus preferidos de sempre, a Tate Modern emociona-me sempre. Detentora de uma detalhada viagem cronológica exímia e inegável, confesso que nunca me conformei por ter pedido a última Unilever Series de Miroslaw Balka. Talvez por isso cheguei expectante com a exposição ‘Sunflower Seeds’ do artista chinês Ai Weiwei. Mas as memórias têm cheiro e jamais me poderia esquecer da exposição ‘The Weather Project‘ onde há sete anos me fundi com o Sol de Olafur Eliasson. Nesses tempos era possível deitarmo-nos no chão do Turbine Hall e contemplar os tons alaranjados espelhados na imensidão do edifício. Hoje não me foi possível caminhar sobre as sementes de girassol de porcelana (produzidas segundo os métodos tradicionais na antiga cidade de Jingdezhen, na China, famosa pela sua produção de porcelana para a corte imperial). E dizem-me que estava a fazer mal à saúde dos que gostam de caminhar sobre obras de arte. Mas estamos numa cidade livre e criativa, numa cidade onde é fácil atravessarmos continentes como quem atravessa uma simples porta. Por isso na transversal cidade de Londres deixo-me levar pelas cores de Gauguin e ‘fecho os meus olhos, para ver’.

coluna ‘à mesa do café trocamos palavras’ publicada a 4 de Dezembro de 2010 no suplemento Outlook do Diário Económico