Pin it

Pin it

‘Londres fascina, saio de imediato num mágico tapete colorido e eis-me transportada para a beleza sem sequer mexer um dedo’. Sempre fui fascinada por lojas de museus e sei que elas são também responsáveis pela criarte, na minha missão de elevar o grande legado que é a nossa língua. E se um dia imaginei uma marca de divulgação da língua portuguesa, inspirada nas palavras de Alexandre O’Neill, hoje habito longe dos ‘portugueses saudosistas, que vivem a miséria de uma noite gerada por um dia igual’. Em Londres é muito fácil viver a possibilidade dos horizontes longínquos e enquanto me entrego às opções dos objectos fixo, na Tate Modern um auto-retrato no Bom Jesus de Braga de Martin Parr, um dos fotógrafos da Magnum. O título? ‘Com amor’. Na busca incessante do sentimento, não perco de vista dois postais com registos de Thomas Ruff. Entre o ‘nudez ez 14’ e o ‘Stern, 02h48m, 35º’, não tenho dúvidas, escolho a imagem do Universo. Abandono o museu e a minha essência mais pura ajoelha-se perante o cenário. Na distância do que me separa do cosmos, impresso num postal ou num céu imenso, os flocos de neve misturam-se com os monumentos da cidade e com os viajantes que anseiam o destino. A beleza obriga-me à paragem e os quatro graus negativos, suspensos na Millennium Bridge congelam a certeza de que a minha Leica jamais captaria o momento. Alongo a memória na máquina fotográfica do meu corpo: Londres mostra-se deslumbrantemente cénica.

‘We are London’ é uma campanha espalhada pelas paredes subterrâneas do metro. Convicta de que as cidades serão sempre as pessoas, muitos são os testemunhos às mesas do café. O sorriso generoso de Manuel Soares Garcia, trabalhador na City londrina diz que somos bilingues quando sentimos noutra língua e na distância da sombra de um apelido, Afonso Rebelo de Sousa percorre um caminho excecional na The Brand Union, uma das maiores agências de ‘branding’ do mundo. No cenário por trás dos vidros a neve cai e regista os flocos a caírem nos lindíssimos ferros do Smithfield Market. Testemunho imagens como quem coleciona postais antigos.

Interessante como um filme de Moretti, a mais fascinante loja londrina – a Dover Street Market – foi imaginada pela cabeça criativa da Comme des Garçons, Rei Kawakubo que estudou filosofia, arte e literatura. A fusão das sabedorias transformou-se numa morada de seis andares, onde uma espécie de mercado de várias marcas e criadores (Comme des Garçons, Lanvin, John Galliano, Monocle ou IDEA Books) encontram-se numa atmosfera de ‘caos calmo’ em busca do belo. E se me deslumbro com a genialidade eclética, confesso que quando o grande esteta do Porto, Paulo Lobo, me fez prometer não deixar de visitar este mercado de formas, estava longe de imaginar a cereja no fim do bolo. Enquanto me sento no ultimo andar, para beber café e provar a famosa tarte de aveia e figo na Rose Bakery, sou privilegiada pela visão da pasta medicinal Couto e nesse preciso momento tenho a mesma sensação que teria se um desconhecido me oferecesse flores.

A cremosidade do caramelo, o aveludado da baunilha ou a intensidade doce da amêndoa, os novos Variations Nespresso mostram-se no mais desejado chá de Londres. O Sketch é conhecido pela irreverência, pela estrela Michelin e pelas originais casas de banho, uns ovos cabine diferenciados no interior, pela cor da luz e sons diferentes que percorrem a música clássica ou os sons da natureza. As várias salas de jantar são lindas e paralelamente aos também famosos chás do recuperado Savoy, do Claridge’s e Browns Hotel em Brook Street, a experiência do Sketch é especial. A morada não é novidade para os Londrinos, mas o chá na sala ‘The Parlour’ é um acontecimento na cidade pela excentricidade com que mistura o ambiente com uma pastelaria digna de um cenário francês de Sophia Coppola. Prendo-me à suavidade dos biscoitos amaretti, ao macarron de canela e laranja (o melhor que alguma vez provei), e ao Pommery Brut Royal servido com o melhor café do mundo. Já em ‘East Side’ o restaurante Le Trois Garçons e o bar Lounge Lovers oferecem-me cenários dignos do filme Vatel de Roland Joffé. Depois de muitas casas de jantar habitadas, este é para mim uns dos mais bonitos e melhores restaurantes de Londres.

Na extensão dos dias encontro-me com um grupo de amigos nas elegantes ruas de May Fair e ao lado de Ricardo Araújo Pereira à porta do Clarige’s retenho-me na entrevista que fez há apenas dois meses a António Lobo Antunes. ‘Uma coisa bela é uma alegria para sempre’ memorizou o escritor das palavras de Keats. Também eu devo muito à pintura, à música, aos livros, mas também à sinfonia de Londres. E não falo das notas de música de Vaughan Williams, mas ao ritmo dos que constroem esta cidade. Com temperaturas negativas em Liverpool Street, aguardo o autocarro e misturada com trabalhadores da City, a elegância do verde da Luvaria Ulisses não chega para me aquecer as pontas dos dedos e por breves instantes tenho saudades da brisa atlântica. Não gosto de acreditar no destino, porque me habituei a lutar sempre pelos cumes das montanhas que imagino, mas a espera revela-se na arte do encontro. O ‘bus’ chega finalmente e à altura da fita ‘Sliding Doors’ de Peter Howitt os instantes são decisivos. Ainda mais angelical que Gwyneth Paltrow, os olhos de Sónia Balacó destacam-se da cidade urgente. Foram poucos os segundos que me distraíram para perder o rasto de uma das mais conhecidas modelos portuguesas. Olho para as escadas do autocarro e vejo no cenário a cor do casaco que fixei a mover-se para o segundo andar. Sigo convicta que seria um dos testemunhos interessantes que poderia encontrar em Londres. Percorro o autocarro, rosto a rosto, olhar a olhar e quando me deparo com uma mulher portuguesa que com certeza ficaria muito bem a contracenar com Clooney, apresento-me. Uns dias mais tarde, num café de Broadway Market, Sónia hoje atriz e agenciada pela Curtis Brown, move as mãos, com a mesma consistência com que partilha o que a fez sonhar mais alto. Sophie é a sua personagem na sua primeira longa-metragem ‘I against I’, depois de muitas aulas com os melhores professores do mundo. Também Matilde Travassos, fotógrafa de moda se mudou para Londres por gostar da ‘vontade de excelência’. Com capas na chinesa Vision é a mais nova sonhadora à mesa do café. Uma frescura contrastante com Pedro Alfacinha que um dia se candidatou a um lugar na loja da Steidl e que hoje edita muitos dos seus heróis como Lewis Baltz ou Robert Franc. Ainda no rasto de ‘um brilho de possibilidade’ das imagens de Paul Graham, o testemunho da qualidade dos seres humanos que bebem café como alcançam sonhos.

A cidade move-se depressa e nas concorridas ruas de Oxford acelero a minha intenção de fuga. A minha ideia de Natal não se move pela busca de objetos e há muito que me rendi a amigos secretos. E enquanto me derrubam nas correntes natalícias tenho a certeza, que não há no mundo nenhum embrulho, pelo qual trocaria a experiência desta cidade. Agradeço a clarividência e enquanto as luzes me iluminam os ombros recebo com ternura a importância das palavras distantes. Miguel Costa arquitecto e urbanista no atelier de Norman Foster, licenciado pela Escola Superior Artística do Porto com MA em Housing & Urbanism pela Architectural Association em Londres, bolseiro pela Fundação Mies Van Der Rohe em Barcelona, colaborou em programas de investigação na Universidade de Kassel na Alemanha, de UNAM na cidade do México ou no Berlage Institute, em Roterdão. Trocamos palavras por e-mail há bastante tempo, mas no mês em que vivo a sua Londres, dirige uma equipa para desenhar um edifício do King Abdullah Financial District, em Riyadh na Arábia Saudita. Atento à minha experiência na cidade onde vive há sete anos, mostra-me o atelier de Norman Foster através de um amigo. Confirmo que as pessoas não são substituíveis e na construção das cidades e dos seus afectos, nas minhas e nas tuas mãos, também eu – tal como Keats – não tenho a certeza de nada, a não ser da verdade da imaginação. Londres é uma cidade sem prazo e mesmo no lamento de não percorrer os edifícios e as carruagens londrinas na companhia dos olhos do arquitecto viajante, agradeço as imagens de Walker Evans. Em todas as velocidades visíveis, no final do dia e apesar da celeridade dos silêncios, todos fazemos parte de uma morada tão frágil como o mundo. E na vontade de alcançar toda a beleza, novamente o poder das palavras. Seremos sempre maiores nas ‘asas invisíveis da poesia’.

coluna ‘à mesa do café trocamos palavras’ publicada a 11 de Dezembro de 2010 no suplemento Outlook do Diário Económico