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No fogo da genialidade
Foi uma viagem atribulada, mas que pela sua genialidade se declara como um grande espaço a engrandecer Lisboa. As nossas cidades têm este potencial imenso, de serem ainda maiores quando se aproveitam por si só. E se o carismático Malaca junto ao rio foi ateado pela intensidade do fogo, enquanto não se recupera a oportunidade de continuar a servir os melhores pratos asiáticos da cidade aproveita a genialidade de se instalar na majestosa livraria Ler Devagar, no Lx Factory. Chego a horas com o meu amigo Alfaiate Lisboeta e impressionados pelo espaço industrial – onde se almoça e janta entre antigas máquinas de impressão recuperadas que limpas e iluminadas são até usadas para guardar copos ou garrafas – estamos sem dúvida presente um espaço único. A noite estava gelada e eu confesso que sofri com a corrente de ar, a nossa mesa à janela tinha uma luz proibida branca e forte – aconselho a reservar as mesas entre as máquinas no meio da sala – e o serviço atribulado chegou até a ter a sua graça, pela vontade atrapalhada em várias línguas. Por momentos senti-me em Nova Iorque, mas estava em Lisboa. Não adorei o serviço, mas, como filha de um alfarrabista senti-me em casa e se as leituras precisam de ser lidas devagar, no Malaca Too o epílogo oi rapidamente positivo. Perante as extraordinárias iguarias de Yoon Chin: tempuras perfeitas, caranguejo de casca mole (Malahai), vieiras Tori em sake e molho de soja, crepes viatenamitas, o obrigatório caril vegetariano ou o arroz cozido em leite de coco com amendoim, pepino e sambal de camarão (Nasi Lamak) sobra ainda tempo para agradecer um espaço que me transporta à imensidão de outras formas.
Malaca Too
LX Factory, Rua Rodrigues Faria, 103, Alcântara
Tel. 96 710 4142

Sim, vale a pena preservar
No edifício tão presente que é a Villa Souza no Largo da Graça, surge mais uma descontraída sala de jantar para ser aclamada na minha querida cidade. Com Lisboa aos pés no miradouro a poucos passos, a grande vontade de recuperar tertúlias entre quatro paredes devolveu-nos o Botequim da Graça. Fundado por Natália Correia em 1968, com Isabel Meyrelles, Júlia Marenha e Helena Roseta, foi aqui que durante as décadas de 70 e 80, se reuniam viajantes de mente como Fernando Dacosta a David Mourão-Ferreira, António Alçada Baptista, José-Augusto França, Luiz Pacheco, Ary dos Santos (obrigada pela letra do Homem da Cidade) ou José Cardoso Pires. Encerrado após a morte de Natália Correia em 1993, ainda reabre como sede da Fundação José Afonso ou mais tarde como uma livraria infantil, o Pequeno Herói. Hoje recuperado a cores que elevam tantas palavras e memórias, o Botequim engrandece a minha cidade das nove da manhã à meia noite e meia. E entre mobiliário antigo, paredes vintage e livros, muitos livros, a morada que transpira boa música oferece ainda um serviço acima da média. Das minhas experiências anoto das sugestões das paredes, a salada de cuscuz com vegetais grelhados, mas se permanecer passa apenas por dedos de conversa, acompanhe a boa experiência de um licor de figo e da deliciosa programação cultural.
Botequim
Largo da Graça, 79/80
Tel. 21 888 8511

Quanto brilho cabe na criatividade de Lisboa?
Pela primeira vez na história da marca sueca, o formato da garrafa foi reformulado com a transformação do seu acabamento numa textura de vidro cinzelado. Se a ideia de cristalino, tem como missão ‘o transporte a uma obra de arte contemporânea que explode luz, vibração e energia em todas as direcções’, o meu brio cultural leva-me a imaginar que poderia ter sido inspirada nos nossos copos da Marinha Grande. Lançada no (muito bem escolhido) Clube Ferroviário, uma viagem que nos convida a entrar na carruagem do ‘aqui e agora’ ou nas palavras absolutas ‘the present is precious, now make it exceptional’
Absolut Glimmer
Preço recomendado €14

crónica ‘Pelas ruas da cidade’ publicada na edição de Janeiro de 2011 na GQ