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Todas as cidades têm o seu tempo mais certo e Londres revela-se mais lenta pelo manto branco que cobriu a cidade. ‘Pela neve sem vincar rasto, sempre caminhou aquele que busca um amor’ é uma das frases do livro que trago comigo para as viagens de baixo de terra. As palavras fazem-me olhar vezes sem conta, para as tantas faces que constroem o movimento da cidade. Talvez por isso a importância das imagens que se cruzam nas carruagens e que a tão poucos centímetros de distância reconhecem a importância de um sorriso. Nestes dias recolho momentos, que me fazem brilhar os olhos mais do que todas as luzes da cidade.

Passeio sobre a neve nas ruas do Soho e por mais frio que esteja, não congelo a minha atenção à vibração londrina. Cruzo-me numa esquina com um viajante que carrega um enorme ramo de flores e o aroma das fréseas brancas magnetiza-me a curiosidade. São flores de março, mas o mês de dezembro tem esta capacidade de me fazer acreditar que tudo é ainda mais possível. Sigo-lhe os passos e descubro uma das moradas mais apetecíveis desta viagem. A Dean Street Townhouse é um hotel elegantemente discreto que não chega a ter qualquer sinal na porta. A entrada tem uma biblioteca e as muitas velas acesas transportam-me à minha ideia de Natal, vivido à volta das histórias dos livros mais antigos. Recebem-me como numa casa de amigos e enquanto observo a dança imóvel das criações de Olivia Putman volto a homenagear o café que tanto elogia as cidades, quando me perguntam se aceito um Volluto. Este é o hotel londrino mais perfeito para me sentir em casa.

‘Londres tem definitivamente um efeito nefasto nos diários íntimos’
Só desta vez atrevo-me a não concordar com Virginia Woolf que tanto me tem acompanhado na beleza dos dias. A velocidade da cidade contraria as mensagens mais cinzentas que me chegam de Portugal. Tenho a certeza que por mais pensamentos fatais, ao privilégio de estarmos vivos, o mundo não acaba nem mesmo com a pior das crises. Por isso mais vale gastar energia na criatividade e no associativismo que sempre tanta falta fez ao meu país Atlântico. Para planear o ano de 2011, o qual tenho a certeza ser importante ao nosso projeto de humanidade, rendo-me às leves e finas folhas azuis da Smythson no número quarenta de New Bond Street. As folhas de apenas cinquenta gramas não impedem o uso das canetas de tinta permanente e mais do que um ‘secret social passport’ a organizar vidas desde 1887, esta loja do centro de Londres é uma bênção a quem gosta de escrever. O Royal Court foi o primeiro registo diário a ser publicado pela Smythson em 1895, que com o formato de um dia por página e com uma secção de informações úteis daria início a uma marca, que tem na sua história as pontas dos dedos da Rainha Vitória, de Sigmun Freud ou de Grace Kelly. Hoje encantam quem sofre de saudades da magia de uma carta. Na coleção dos Panama Notebooks rasgo o sorriso nas mensagens que as capas oferecem: ‘dance like no one’s watching’,’dreams and thoughts’, ‘now panic and freak out’ ou ‘make it happen’. A ideia genial foi da diretora criativa da marca, a primeira-dama Samantha Cameron que estendeu a genialidade à ousadia. As páginas por preencher dizem-me ‘está tudo por acontecer’.

É mesmo agora o que mais me comove
Com a mesma beleza de um quadro de Johannes Vermeer, a futura primeira-dama da banca inglesa, Ana Horta Osório partilha-me as moradas mais apetecíveis da elegância londrina. Anoto a exuberância discreta do Zuma, do Nobu, do Cecconi ou do Cipriani London. ‘Viver Londres é também viver os leilões da Sotheby’s, as corridas de Ascot, ou o torneio de ténis Wimbledon’. Para nos guiar existe um Tatler London Guide e para mesa do café o último andar do Harvey Nichols ou as cores românticas da Ladurée. Na importância de quem corre por gosto e não se cansa entre cidades (Ana é fundadora de um dos melhores Spas de Lisboa, o Spatitude) ainda a conquista da Maratona de Nova Iorque, a partilha da cidadania numa Londres que tanto vive de associativismo ou das tantas causas por uma causa. Registo a cidade no seu retrato mais perfeito.

Um destino que passa e não passa por aqui
A cidade revela-se por ser de passagem e muitos me confessam os tantos amigos que já partiram. Na velocidade da memória recordo-me das conversas de um dos mais antigos restaurantes de Londres, o Rules, que me privilegiou com um soberbo pato selvagem com macas caramelizadas e um ‘toffe pudding’ de avelãs ou do extraordinário e bonito Daylesford Organic, um mercado e também café biológico que adoraria ter em Lisboa. Porque a extensão da alma também come, os livros e histórias da magnânima Daunt Books, em Marylebone High Street, a beleza gráfica dos livros da Magma em Clerkenwell Road ou as viagens paginadas na Travel Book Shop no cenário edílico de Notting Hill. No bairro que escolheria para viver, a espontaneidade e os almoços sofisticadamente descontraídos do café 202, com quem me sentei à mesa com Mariana de Castro. Não proclamo ‘o sonho como a pior das cocaínas’, mas agradeço o seu doutoramento no Kings College que em breve nos permitirá o Shakespeare de Fernando Pessoa. A ponte literária recorda-me as placas azuis que memorizam as casas mais importantes da cidade. Sãos marcos que relembram quem não deve ser esquecido e que não perdem o seu lugar sagrado na cidade enquanto o tempo passa. Também Mafalda Trabucco Borea me confirma a importância das imagens cénicas deste bairro vintage. A trabalhar na Mubi, a sala de cinema on-line permite descobrir e partilhar com cinéfilos desconhecidos fitas raras de encontrar em qualquer prateleira de uma loja, confirmando-me o futuro do cinema em casa.

Aquilo que nem ao vento sequer segredamos
Abandono os cafés onde troquei tantas palavras. São imagens e movimentos que passam a fazer parte de um livro, que passam a existir demasiado em todas as memorias que hoje trago comigo. Um testemunho romântico de uma cidade, que mais do que um cenário da história de Sarah e Maurice do romance de Graham Greene, abre-me à importância dos seres humanos. A velocidade dos dias toma conta de mim e enquanto a neve cai a energia esgota-se no meu último dia em Londres. Entregue ao positivismo de um condutor desconhecido, o táxi rasga as ruas ao longo do rio, dando-me uma imagem mágica da antiga central eléctrica em Battersea. Pela febre que me deixou quase intransportável imploro o meu lugar com destino a Lisboa. São momentos que me fazem viver o meu ‘The Sheltering Sky‘ de Bernardo Bertolucci e que longe das cores proibidas de David Sylvian, reconhece a importância de um taxista no momento de uma partida. O aeroporto revela-se num caos imenso e consigo embarcar acreditando nos milagres desta época de luz. Agradeço com humildade o regresso da viajante no momento que re-encontro o poema que deu o título a estas páginas. E enquanto ‘a noite abre os meus olhos’, recebo as palavras do poeta distante: se hoje me puderes ouvir recomeça, medita numa viagem longa, ou num amor,
talvez o mais belo.

coluna ‘à mesa do café trocamos palavras’  publicada a 7 de Janiero de 2011 no suplemento Outlook do Diário Económico