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Enquanto reúno no coração os meus melhores sentimentos, um pássaro decide pousar na varanda da minha janela atlântica. E não hesito, enquanto sorrio com humildade. Será possível transformar, em palavras, esta experiência?

A ideia perseguia-me há tempo, mas a vida tem este esplendor inexplicável de nos pôr a apanhar as carruagens mais certas, nos momentos mais precisos. Com tudo planeado, não ia sozinha para Évora, mas o não ser refém dos mal-entendidos do mundo, mostrou-me que esta viagem teria apenas uma única companhia.

Rasgo a auto-estrada e a exigência do meu 2011 corre-me nas veias. Plena de que, na nossa vida, não devemos perguntar ‘porquê’, mas apenas ‘para quê’, as borboletas inundam o habitáculo do carro que pulsa também à minha velocidade. As borboletas partem das minhas entranhas mais profundas e chegam até ao paraíso de uma ilha deserta ou mesmo à incerteza deliciosa do desconhecido. Recebo, por mensagem, uma ordem para gozar e, envolta numa agradável ansiedade a delinear-me os movimentos, estaciono no Aeródromo Municipal de Évora.

Com os pés no chão e com a verdade que defende o meu ser humano mais completo, não me escondo na evidência mais transparente de todas: estava silenciosamente agitada. A Paula, hoje a tomar conta da Skydive, dirige-se a mim como se não tivesse importância nenhuma ter trocado o dia do voo para um dia antes. Doce e envolvida numa aura rara de quem se move como se nada a atingisse, rasga-me o pensamento o que teria esta mulher vivido, para agir com tanta serenidade perante os passageiros nervosos que se aproximavam. Protegida por uma energia de luz, mostrava-se como uma mulher a quem o processo da vida já a elevou a um ser humano mais alto, com uma luminosidade que me descongelava o receio do dia.

A pioneira Skydive Portugal existe em Évora desde 2007 e, se hoje se salta tanto de pára-quedas em Portugal, o lance visionário chegou pelo voo de um homem empreendedor. Eddy era um homem franco de sorriso jovem, um homem sem medo de arriscar em tudo aquilo em que acreditava. E essa magia sente-se quando somos acolhidos por todos os seres humanos que constroem esta empresa atmosférica. Pela beleza recolhida do dia, imagino que na sua partida (Eddy abraçou para sempre a beleza do céu no verão de 2009 num acidente de avião na companhia do pára-quedista João Silva) deixou dois filhos lindos entregues à serenidade de Paula, mas também um grupo de instrutores, pára-quedistas e sorrisos que me recebem como tanta genuinidade, que não tenho dúvidas: estou no seio de uma família.

No movimento da gare, retenho-me na enorme imagem sueca de Jorge Grade, um dos grandes atletas do pára-quedismo português. Paula apresenta-me o Faustino, o braço direito de todo o legado deixado por Eddy, e sossega-me por ser uma das pratas da casa, o director técnico da Skydive. A caminho dos cinco mil saltos, Faustino é um dos nossos melhores pára-quedistas de free-fly e, se julgam que a vida deste ser humano se resume a isto, que se desenganem os menos ambiciosos. Carlos Faustino gere uma empresa em Lisboa e entrega-se de corpo e alma, quatros dias por semana a realizar os desejos dos seres humanos que sonham em abrir asas. Esta entrega fervorosa, não o deixa talvez ter o mediatismo que lhe era merecido, mas um dos mais experientes jump flyers do país, o homem que me ia fazer voar é nutrido de uma abordagem ousada. Nos meus olhos sublimava-se um homem, que transporta com enorme responsabilidade o crescimento de um legado que não pediu por herança. Não é assim tantas vezes a vida, estar à altura do que nos acontece com uma dignidade que será sempre maior em silêncio? Longe dos holofotes de qualquer meio de comunicação social ou patrocínio de bebidas que nos fazem voar, Carlos Faustino salta de onde quiser na calada da noite e, neste dia, entregando-me nas suas mãos, abriria as asas do meu salto para a vida.

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Com uma espontaneidade de criança, o homem-pássaro alinha em tudo o que lhe peço, incluindo o capricho de saltarmos vestidos de amarelo, uma cor que decidi colar à pele desde que o não-presente me decidiu tirar a rede. Apresenta-me o Nuno, o homem que ia registar ao vivo e a cores o meu voo. Nuno Lobo Paulo é atleta da Selecção Nacional de Pára-Quedismo, a Atmosfera G4 na modalidade de voo de formação. Com uma boa disposição de veludo, Nuno revela-se capaz de ressuscitar qualquer alma insegura, que chegue pronta a despegar-se de tudo aquilo que nunca compreendeu na sua vida. Teria esta família a noção do que eu vivia neste dia tão sagrado? Claro que não, mas porque fluía tudo tão demasiadamente perfeito e porque me descongelavam as pedras do caminho com um sorriso generoso, que só me lembro dos tempos de criança?

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No seu amor às asas dos outros, a criatividade de Nuno imaginou um dia o Ultimate Switch, um dispositivo de accionamento da máquina fotográfica através do sopro, desenvolvido para ser o mais pequeno, leve e duradouro sistema profissional de disparo remoto de pára-quedismo. Desenvolvido e patenteado em Portugal há três anos, este equipamento é comercializado em todo o mundo, com revendedores em todos os continentes. Nuno respondia a todas as minhas perguntas, mesmo as mais loucas, compreensíveis para quem se vai atirar, daí a uns minutos, à beleza intocada das nuvens. Enquanto visto o fato que me iria proteger das temperaturas negativas, Faustino explica-me como me comportar lá em cima e pergunta-me se estou nervosa. Com a minha resposta negativa, provoca-me até à partida do avião e fica decidido que a saída seria em mortal para trás. ‘Perdido por cem, perdido por mil’ foi o meu pensamento imediato. E confesso que ainda estou incrédula, tanto com o medo que nunca chegou, como pelas as borboletas que desapareciam sem deixar rasto.

A bordo da aeronave Cessna Caravan 208 B, um dos melhores e mais utilizados aviões de turbina para pára-quedismo – leva até dezoito pára-quedistas – Paulo filma a sombra do avião, nos campos que abraçam o aeródromo e eu confirmo a invasão de uma alegria, livre e diferente de tudo o que já tinha vivido nos meus anos de vida. Teria eu enlouquecido, ou a minha vontade de me fundir com um dos elementos da natureza que mais respeito, permitiam-me enfrentar sem receio o mergulho no todo? Na troca de lugares, outro atleta da Selecção Nacional brinca comigo. José Luís Candeias, vestido com um fato de cores ousadas para um homem daquele tamanho (era cor de rosa e com flores havaianas), pergunta-me porque me pintei para saltar. Retenho-me num segundo na expressão vernácula ‘pergunta o roto ao nu’, e respondo-lhe serena da minha convicção: ’é que hoje é um grande dia’.

Tal como William Wallace, também eu entrancei o meu cabelo e usei tinta azul para enfrentar uma batalha impossível no passado. No meu Braveheart, recolhia, com as mãos a transbordar, tudo o que os seres humanos presentes na aeronave me entregavam. Da Marta, recolhia tudo aquilo que a minha infância de cristal nunca me deixou ser: ali, eu tinha a oportunidade de mostrar a minha criança mais guerreira.

A saltar com mais de quatro mil saltos aos vinte e dois anos, Mário André já atingiu todos os desafios que pode atingir um pára-quedista. A saltar com uma asa de oitenta e dois pés – eu saltei com uma de duzentos e quarenta pés – Marinho, como lhe chama esta sua grande família, é o menino de ouro da Skydive. Está na fila de trás ao lado da Marta, mas jamais será por isso que o sinto distante. O que teria este ser humano, para entregar à recolha do que seria, a partir daquele dia, a minha vida? Segredam-me as nuvens que Marinho podia ter-se encostado à sobra de quem um dia o pôs no mundo. Mas com o mesmo molde de compreensão do que tantas vezes nos faz falta, recolho a irreverência, quando identifico a qualidade de uma fibra, que mesmo sem o devido colo, nos fez crescer a uma altura que jamais será física.

A sete mil pés de altitude, abro as mãos para recolher a luz da Maria. Sentada a meu lado e com umas feições de mulher bonita, por fora mas também por dentro, a raça alada da pára-quedista provocaria cobiça a qualquer página da Vogue, ou a qualquer figura feminina do Matrix, dos irmãos Wachowski . A Marta, mãe de três filhos, não saltava há catorze meses. A sua concentração absoluta contrastava com a minha excitação de miúda, que tenta divertir as caras estarrecidas dos que, como eu, saltavam pela primeira vez. Sem surtir efeito nas faces dos estreantes, vivi a seriedade do meu salto através da sua serena e consistente auto-focagem. E enquanto me saiam gargalhadas de felicidade unia-me à sua aura para atravessar um dos momentos mais sérios da minha identidade.

A minutos de abraçar o mundo, apenas me retive no privilégio do caminho percorrido, que me permitiria dar este salto emocional. Com ele a oportunidade de me desprender de tudo o que me tem distanciado do projecto mais puro à minha essência. E ali estava eu preparada para enfrentar o Universo ‘face to face’ (desculpem-me o estrangeirismo), mas quando a porta do Cessna se abriu, toquei com os olhos a curvatura do mundo inteiro. Pendurada na humildade de não me ser possível exprimir por palavras o que senti, os meus olhos viram um mundo que me permitia, a partir daquele momento, viver a vida que eu quisesse: ‘ Estou aqui. Sou livre, posso imaginar tudo’.

Agarro-me como uma miúda inconsciente, às alças que me prendia ao homem-pássaro. Nesse momento, a minha alegria é transformada num sério e consciente momento de introspecção, de tudo o que representava o meu salto para a atmosfera. Antes de saltar, tenho ainda tempo para confessar segredos distantes à nova família do ar e memorizo a carruagem onde me encontro. Não são as bonitas imagens de Walker Evans, mas antes a de uma cena que me revela, sem dúvida, todos os anjos que me acompanham desde que cheguei à Terra. Ali estava eu inteira, despida por dentro, na carruagem das asas de um desejo, que podia ser de Wim Wenders. E de mão dada às entidades que me ajudam todos os dias, a construir a melhor versão da minha existência, com eles estava o Eddy, a quem agradeço nestas linhas nunca ter desistido do sonho, que hoje me permitia a escolha da nova vida.

Num ano em que ser português pode ser tão difícil, agradeço a sua visão e a capacidade de ajudar tantas almas que aqui chegam, muitas vezes, manchadas pelo ‘sítio tão frágil que é o mundo’. Aceito tudo o que o céu me entrega, mesmo a sabedoria de não conseguir descrever o que foi viver o sagrado a 264 Km/h. E é sem palavras que acabo esta Saída de Emergência, uma porta que mudou a minha vida para sempre, e que confirmou, com toda a beleza que ainda espero viver neste mundo, que ‘as luas que muitas vezes conhecemos, só existem pela reflexão da luz. A luz do Sol’.

crónica publicada a 7 de Setembro de 2011 na Vogue

Skydive Portugal
Aeródromo Municipal de Évora
Tel. 910 999 991/ 256 878 086
www.skydiveportugal.net

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