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Viver os Açores é viver Portugal em forma de sonho. Um sonho que Sophia de Mello Breyner registou para sempre como ‘um pedaço de terra onde o mar é maior’. No arquipélago onde o mar é maior os seres humanos tornam-se mais humildes, perante a grandeza da dispensável mão do homem. Num verão onde somos mais do que nunca chamados à nossa identidade, como humanos e como país faz mais do que sentido descobrir umas das mais bonitas ilhas do mundo. Nos Açores crescem as Bellis Azorica, também conhecidas por margaridas, a espécie protegida pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitats é única na terra.

Nos Açores crescem os melhores e mais genuínos ananases portugueses, que produzidos em estufas de vidro e utilizando técnicas de cultivo tradicionais, demoram dois anos até serem colhidos. Nos Açores há calçada portuguesa com certeza, mas são utilizados seixos pretos e brancos do Atlântico em vez de pedras calcárias. Nos Açores já bolo levedo quentinho que nos permite sensações de veludo. Nos Açores e de cultivo junto ao mar crescem as cepas de verdelho, espécie referida por Leon Tolstoi no livro Guerra e Paz protegidas como Património da Humanidade.

No melhor destas ilhas Atlânticas intocados há lugares que elevam Portugal ao nível de qualquer viagem de sonho que muitas vezes desejamos por esse mundo fora, mas com uma diferença: não estamos a horas largas de avião e estamos em território onde a língua nos aproxima à nossa mais bonita e humilde identidade. Mais ainda, a viagem é uma elevação à natureza, num início de um século que nos diz ser urgente conectar com a nossa essência. E assim de repente, num tempo como este em que vivemos em transformação interior, não me lembro de mais nenhum lugar que possa ser mais magnânimo para uma viagem sagrada como essa.

Na ilha de São Miguel, a Lagoa das sete Cidades e a Lagoa do Fogo dispensam as minhas palavras jamais suficientes. Eu rendo-me sempre mais à segunda e peço-vos para não abandonarem a ilha sem fazer uma caminhada dentro da cratera já que a experiência é um dos corações mais sagrados da ilha. De Ponta Delgada e a caminho da Lagoa do Fogo, os lofts e apartamentos do Pico do Refúgio são um dos lugares mais apetecíveis para fazer desta a sua morada. A sua localização em Rabo de Peixe e a sua estrutura fortificada tiveram um papel importante na vigilância da costa, contra corsários e mais tarde nas lutas liberais, como forte de milícias. Em tempos cultivou-se chá, laranjas e foi a casa de campo do pintor e escritor Luis Bernardo Ataíde tal como, mais tarde, residência e fonte de inspiração da escultora Luisa Constantina. Com vinte hectares à disposição, em parte inseridos na reserva ecológica regional, misture-se com a agricultura (há produção de compotas caseiras desde o cultivo dos próprios frutos), observe aves, dê longos passeios a pé, relaxe na piscina inserida no meio da natureza ou de jante sobre árvores à luz das velas. Bem perto do Pico do Refúgio pode ainda surfar na praia de Santa Barbara onde se realiza anualmente o Campeonato Nacional de Surf.

Na extensão das águas pode tomar banhos de mar com águas a mais de quarenta graus. A experiência sensacional acontece nas Termas da Ferraria, integradas no monumento natural regional do Pico das Camarinhas, uma zona de protecção da natureza composta por varias estruturas de origem vulcânica de grande valor paisagístico. ‘Este acontecimento geológico é anterior ao povoamento da ilha de São Miguel e teve origem numa erupção estromboliana que construiu um cone de escórias e originou uma escoada de lava que desceu pela arriba em direcção ao mar e construiu uma fajã lávica. A entrada desta corrente lávica no mar, gerou uma explosão freática, que por sua vez criou uma estrutura vulcânica em forma de cone, encimada por uma cratera. Não sendo uma cratera comum, por não estar associada a uma chaminé vulcânica de cuja profundidade viria o magma, esta cratera é cientificamente designada de pseudo-cratera e é considerada, pela sua singularidade e beleza, um Geomonumento a preservar. Mas para além da sua beleza e interesse científico, o lugar da Ferraria tem outra grande riqueza: as suas duas nascentes de águas termais de origem vulcânica que aquecem as piscinas naturais da Ferraria e abastecem o seu complexo Termal’. As qualidades terapêuticas das águas termais levaram a que se tornasse um local de culto desta ilha atlântica.

Nos restaurantes de São Miguel destacam-se o Colégio 27 e o Gato Mia. O primeiro tem morada num antigo estábulo e numa antiga fábrica de sal, onde Michael Smith construiu um dos lugares mais desejados de São Miguel. Um dos melhores sítios para se jantar a ouvir jazz muitas vezes ao vivo, na companhia de uma cozinha com influências francesas, escandinavas e de fusão. O Filet Mignon, o Carneiro assado, a tosta tradicional de camarão, a Salada Caeser, o salmão da Noruega marinado com molho de mel e mostarda, a sopa de lagosta e para sobremesa, a tarte de pêra com molho de baunilha ou os morangos flambé confirmam uma cozinha internacional. No Gato Mia a honra da casa é feita pelas iguarias açorianas, num ambiente contemporâneo de riscas coloridas em contraste com o rústico. Rasgado por janelas com vista para o jardim, onde se destacam as petúnias, a morada é ideal para se deliciar com uma das melhores ofertas gastronómicas dos Açores. Bacalhau na chapa com migas, espadarte grelhado com manteiga de alhos, Naco de atum regional com crocante de azeitona, Plumas de porco preto com migas de bacalhau, ou o desafiante Bife de lagarto grelhado são muitas das tentadoras sugestões que não ficam atrás do delicioso pudim de mel.

A segunda maior ilha e uma das mais bonitas do arquipélago, oferece-nos o testemunho da mais magnânima montanha portuguesa. Na ilha do Pico a beleza do silêncio é ainda maior. Situado na zona protegida da Vinha do Pico, classificado como património Mundial pela UNESCO, o sítio de excelência para sonhar na ilha é o Pocinho Bay. Com uma vista para a baia idílica, rodeado de elegância e excelentes conceitos estéticos, a decoração de design contemporâneo transpira a simplicidade dos Açores em estado puro, aliado a uma imensa elegância espontânea. O ambiente exterior é tão encantador como o interior, uma vez que fica situado mesmo à frente da baía com praia e com vista para a ilha do Faial. Pode optar-se por dar passeios pedestres por aquela região contemplativa ou se quiser relaxar na piscina ou acabar o dia na praia. Será esta a ilha ideal para observar cetáceos, mergulhar com golfinhos ou fazer uma viagem interior até ao cume do Pico.

Num extremo mais ocidental e num planalto sobranceiro ao Atlântico, a natureza guarda como um míudo guarda um tesouro um dos seus maiores mistérios, a Aldeia da Cuada. Abandonada nos anos sessenta quando os seus habitantes emigraram para a América, a aldeia foi recuperada estabelecendo um lugar à medida do isolamento da Ilha das Flores. Numa viagem entre o passado e o presente e com um enorme respeito à traça rural das casas de pedra a Aldeia da Cuada oferece-nos uma experiência de natureza pura que nos funde com o aroma fresco dos Loureiros e o doce perfume da Cana Roca. Aqui a tranquilidade nos Açores é total, sempre na companhia do canto dos pássaros que acompanham a ilha e que nas palavras aquáticas de Vitorino Nemésio, transportam os humanos a uma ‘vontade de uma verdade sempre mais pura’.

crónica publicada na edição de Outubro de 2011 na GQ

Agenda de Bordo
www.sata.pt
www.visitazores.org
www.acores.com
Pico do Refúgio
Roda do Pico 5, Rabo de Peixe, Ribeira Grande, São Miguel
Tel. 296 491 062 www.picodorefugio.com
Termas da Ferraria
Rua Ilha Sabrina, Ginetes, São Miguel
Tel. 296295669
www.termasferraria.com
Seg a Dom 10h – 19h
O Colégio 27
Rua Carvalho Aráujo 27 – Ponta Delgada, São Miguel Açores
Tel. 296 288 930
Ter a Dom 12h – 15h e das 19h – 23h
O Gato Mia
Rua Fulgêncio F. Marques, 13, Ribeirinha, Açores
Tel. 296 479 420
Quar a Seg 12h – 15h e das 19h – 23h
Pocinho Bay
Pocinho Monte, Madalena, Ilha do Pico
Tel. 292 629 006
www.pocinhobay.com
Aldeia da Cuada
Ilha das Flores
Tel. 292 590 040
www.aldeiadacuada.com