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Confesso. É no metro agitado de Londres que recolho sempre a poesia desta cidade.

Na memória, trago o mês de Dezembro do ano passado, durante o qual me rendi à ousadia de vestir a personagem de uma ‘londoner’, em dias onde imortalizei o início de uma das mais importantes viagens de sempre. Por isso, regresso hoje, com as mãos revestidas de Lisboa, humildade e consciência, sempre com a certeza que em tão pouco cabe a extensão de uma vida. ‘The world is your oyster’ diz-me a capa do cartão que me move na cidade londrina, e, na sua extensão uma cidade com o mundo a meus pés.

O Natal tem esta capacidade de nos colocar frágeis, de nos fazer sentir mais vulneráveis a tudo o que procuramos a cada dia que temos o privilégio de pulsar vida. E se as veias correm à velocidade das carruagens, numa época em que pomos tantos das nossas questões em causa, a certeza chega veloz: a mais importante viagem de todas será sempre a que fazemos à nossa essência.

Por isso, chega a necessidade de viver a Londres mais calma, aquela que não corre. E se o Blakes Hotel preenchia sonhos profundos e faustosos, é no The Hempel que a atmosfera limpa devolve clarividência interna. No movimento das linhas simples e direitas, e das cores claras e límpidas, observo a dança das copas das árvores que podemos observar da janela do quarto.

Da autoria da designer britânica Anouska Hempel – que também assina o Blakes – a arquitectura elegante, transporta qualquer mente ao minimalismo e, sem deixar de ser acolhedor, oferece um refúgio íntimo e elegante colado à magia de Notting Hill. E se este bairro imortalizado em tela é um dos bairros que nunca descolo das minhas visitas a Londres, é na Tate Modern que inspiro fundo todos os anos.

Nas portas de um dos museus mais fascinantes do mundo, abraço as árvores e não me rendo à frase desesperante. Tacita Dean apresenta no Turbine Hall um filme de onze minutos que, em silêncio e projetado sobre uma tela gigante, exibe o primeiro trabalho da The Unilever Series, dedicada à imagem em movimento, homenageando as técnicas analógicas de produção de filmes em vez da digital. A obra evoca a Odisseia no Espaço e a sua fusão com os visitantes é como um poema visual. Na exposição temporária, a minha aclamação a um dos meus autores vivos de eleição, Gerhard Richter.

A exposição ‘Panorama’ apresenta quase cinco décadas, no aniversário de oitenta anos do artista, como uma grande retrospectiva dos seus mais significativos momentos. Nas pinturas realistas com base em fotografias, nas colorações de abstracção gestual, das pinturas e paisagens, Gerhard Richter transpira momentos significativos da história ao longo de sua carreira.

E se uma imagem vale mais que mil palavras, é com os seus retratos que viajo até onde as minhas pernas o permitirem. Assim como adormece a cobrir as mãos e a abrir as asas que transbordam pelas janelas.

crónica publicada a 20 de Dezembrode 2011 na Vogue

To be continued…

 

 

 

Voo para o Londres
www.easyjet.com

The Hempel
31 – 35 Craven Hill Gardens, Londres
Tel. +44 207 298 9024
www.the-hempel.co.uk

Gerhard Richter: Panorama – até 8 de Janeiro
The Unilever Series: Tacita Dean – até 11 de Março
Tate Modern
www.tate.org.uk