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Existem nestas linhas humildade suficiente para saber que não haverá em nenhum dicionário da terra, com palavras possíveis à altura da experiência da ilha do Pico. Dias onde a pureza da consciência permite no pulsar das veias, o basalto negro, o azul do Atlântico e o verde que eleva Portugal ao seu estado mais nobre.

Cheguei ao Pico na minha companhia, numa manhã de nevoeiro e sem saber o que me esperava deixei-me guiar pelo fundador do Cume 2351, o guia Nilton Nunes que criou a empresa especializada na subida mágica e na exploração da ilha, como local e como pessoa que conhece cada recanto da ilha, cada rosto das ruas e cada árvore de fruto. Apenas com três horas de sono não cheguei a questionar-me se estaria à altura do desafio, porque as nuvens guardam a altura da montanha, num mistério que é para desvendar devagar e quem qualquer ponto de interrogação. De um lugar que é muito mais do que uma montanha Atlântica, há um mistério que nos protege, que os obriga a gozar o durante e não o objectivo,sempre na certeza de que esta montanha é um local sagrado.

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Habituada a prender quem a compreende, com a montanha percebo o que os habitantes da ilha me segredam que existem pessoas que não conseguem permanecer muitos dias. A ilha do Pico emergiu de uma fractura tectónica de orientação Ono-Esse, a mesma que deu origem à ilha do Faial, denominada Fractura Faial-Pico, que se desenvolve ao longo de trezentos e cinquenta quilómetros desde a Crista Médio Atlântica, até uma área a Sul da Fossa do Hirondelle. Como a segunda maior ilha do Arquipélago dos Açores, dista de cerca de oito quilómetros da Ilha do Faial e de quinze quilómetros de São Jorge. A sua superfície com quatrocentos e quarenta e sete quilómetros quadrados, apresenta quarenta e dois quilómetros de comprimento por vinte de largura. Na magia do lugar existe uma energia diferente de tudo o que já vivi no mundo. A subida faz-se cadente e ritmada, que na minha experiência atingiu as três horas de caminhada. A simplicidade e humanidade de excelência do guia Nilton Nunes faz parte das entranhas desta terra e com uns olhos tão profundos como o mar do oceano é na simplicidade das suas histórias que vou tocando as histórias puras das pessoas da ilha. No que senti no cimo do Piquinho, a ponta mais alta da montanha do Pico, partilho apenas a provocação de quem não acredita em impossíveis, convido os leitores destas linhas a não deixarem a vida sem viverem esta experiência sagrada.

Ainda intocada pela ganância autárquica, a tristeza de betão não toca a olha do Pico. O hotel ao lado da Ilha Verde Rent a Car – que me conduziu nos dias da ilha – é a única nódoa digna de uma borracha no postal desta ilha tão intacta. Uma ilha que para onde quer que olhemos sempre em direcção ao mar, ou à direcção do Pico nos aproxima dos cinco sentidos e que na sua intocabilidade é um lugar para permanecer, para observar, para absorver e para sentirmos o que de mais puro transportamos.

No alpendre sobre o mar
A minha primeira paragem de sonho foi feita na Piedade, no extremo este da ilha, no L’Escale de l’Atlantic. Com uma vista edílica sobre a ilha de São Jorge, a casa recuperada pelos actuais proprietários, Monique e Jack partilham detalhes e recantos geridos com horas certas, num ambiente descontraído e informal. Os tons suaves e o romance dos mosquiteiros inundam os quartos que se dividem pelos nomes das ilhas do arquipélago dos Açores. A casa tem muitos livros e histórias para contar e o pequeno-almoço, servido com uma vista sobre o mar oferece aos clientes receitas diferentes todos os dias. O talento de Monique aproveita e recicla materiais cerâmicos de cores atlânticas, estendendo a sua arte não apenas nos pormenores do terreno do jardim mas até às fontes que deixadas ao abandono na vila.

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Uma morada para permanecer
Na Madalena e junto ao mar, o Pocinho Bay fica no coração da zona protegida da vinha do Pico, classificada como património mundial. Com uma vista de tirar a respiração é em frente ao Atlântico que numa pequena baía, em frente à Ilha do Faial que habita a morada mais privilegiada para adormecer na ilha. A grande casa dividida em pequenas casas de pedra, fundem-se com o bom gosto e sofisticação do design e dos materiais simples. Com uma pequena baia em frente ao mar, a alargada visão de mundo e o bom gosto de Luísa e José Eduardo abrem as portas de uma casa única na ilha, onde no coração de uma família nos é entrega sem tempo de mãos abertas, sempre com espaço para o nosso tempo mais puro. Uma piscina com vista Atlântica, uma varanda que nos emociona ao fim da tarde e os melhores pequenos-almoços que poderá ter no Pico fazem do Pocinho Bay a experiência mais apetecível e sofisticada da ilha.


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No encontro dos viajantes do mundo
Em São Roque, a Pousada de Juventude daria uma Pousada de Portugal fora de série, mas a democratização à juventude marca encontro com os muitos cidadãos do mundo que partilham por alguns dias o mesmo teto. Sem limite de idade, o Convento de São Pedro de Alcântara, edificado no século XVII, a morada é ideal para partilhar a ilha nas noites conversas longas nos claustros ou nas alas do convento, na companhia de muitos viajantes do mundo.

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Na gratidão do amor
Na ilha há rostos que marcam. Há pessoas que me contam as suas histórias como se declamassem poemas. Na Adega da Buraca, Leonardo Ávila da Silva fala com as emoções a transbordar nas palavras que lhe escorrem do coração aberto. Com os pés enraizados nas terras mais sublimes do Pico é com o seu amável convite, que passo um dia nas vindimas. E sem dar pela passagem das horas, entre o esgravatar da terra e o apanhar das uvas, com o calor do Sol a bater-me nos ombros dou por mim a almoçar a uma mesa de família, onde o amor se faz sentir. Na gratidão com que me acolhem, sinto um mundo puro longe da velocidade das cidades que tanto me movem.

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No testemunho da beleza humana, não tenho dúvida: era capaz de morrer nesta ilha a escrever poemas. Nas palavras que falam com a minha consciência testemunho os sentimentos de Raul Brandão. É que a ilha do Pico também se apoderou dos meus sentidos. ‘O Pico é mais bela ilha dos Açores, duma beleza que só a ela pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção. É mais que uma ilha, é uma estátua erguida até ao céu e moldada pelo fogo’. Uma ilha de bruma, onde também eu passei a pertencer e onde recolhi uma imagem que guardarei até ao fim dos dias. A pureza de um postal ‘onde as gaivotas vão beijar a terra’.

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Moradas imprescindíveis
Voo Lisboa Pico pela Sata

Tel. 707 22 7282
www.sata.pt
Pocinho Bay
Pocinho do Monte, Madalena Pico, Açores
Tel. 229 629 135
www.pocinhobay.com
L’Escale de l’Atlantic
Morro de Baixo, Piedade, Pico, Açores
Tel. 292 666 260
www.escale-atlantic.com
Pousada de Juventude do Pico
Rua João Bento Lima, São Roque do Pico, Açores
Telefone: 292 648 050
www.pousadasjuvacores.com
Ilha Verde Rent a Car

Tel: 351 296 304 842
www.ilhaverde.com
Aventura
Cume 2351 (para subir o Pico e explorar a ilha)
Tel. 914570009
www.cume2351.com
Material para a subida Merrel
www.merrell.com
Mergulho e observação de Cetáceos
Tel. 292 293 891
www.norbertodiver.com
Turismo
www.pt.artazores.com
Restaurantes
Petisca
Avenida Padre Nunes da Rosa, Pico, , Açores
Tel. 292 622 357
Ancoradouro
Rua Rodrigo Guerra, 7
Areia Larga Madalena, Pico, Açores
Adega a Buraca
Estrada regional 35 Santo António Pico, Açores
292 642 119
Canto do Paço
Rua do Ramal, Prainha São Roque do Pico, Açores
292 655 020

crónica publicada na revista Fora de Série do Diário Ecomómico a 3 de Fevereiro de 2012