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O Populi estava na agenda, mas foi um convite de um almoço de trabalho que me levou a conhecer o restaurante da ala nascente do Terreiro do Paço, aquele que está mais perto do rio. Depois, fiz uma segunda incursão para experimentar o brunch de Domingo.

O dia estava quente e a escolha da mesa fez-se dentro de portas, de janela rasgada até ao chão, aberta para o movimento do Terreiro do Paço. Fui cumprimentada por um dos donos do espaço – António de Sousa Duarte – e confirmei que Lisboa tem este tamanho fascinante de reconhecermos caras em esquinas escondidas: conheci o António no lançamento do Melhor livro de chocolate do mundo, de Carlos Braz Lopes, e, depois de retribuir o cumprimento, fomos entregues à simpatia de uma colaboradora – talvez um pouco forçada. Na minha segunda incursão, não chegou sequer a retribuir o meu ‘Boa tarde’.

Pedidos de desculpa em demasia à parte, e focada na carta escolhi como prato principal um Polvo com batata–doce e grelos, e a minha companhia um Bacalhau à Brás. Convicta, partilho que foi o melhor polvo que alguma vez provei em Lisboa. A textura desfazia-se como veludo e os sabores da batata-doce, com os grelos extraordinários, deram-me um dos melhores momentos do ano saboreados numa mesa de Lisboa.

Não provei o Bacalhau, mas sei que o chef Luís Rodrigues – com passagem pelas cozinhas de grandes chefs do meu coração, como Luis Baena, Ljubomir Stanisic ou José Avillez – colocou este prato na lista, por evocar a memória da Mãe, uma cozinha que lhe germinou as emoções que gosta de partilhar nas suas criações. Também a influência das mãos poderosas da Tia, com quem descobriu alheiras, folares e enchidos de Páscoa de Mirandela – terra onde tem as raízes -, enquanto os primos brincavam lá fora.

Na sobremesa, atirei-me curiosa para o Melhor Gelado de Chocolate do Mundo: talvez o recurso ao adjetivo tenha sido exagerado – ou talvez seja apenas porque gosto demasiado do crocante do bolo que não senti no gelado.

O nome do Populi surge na carta com ‘food with friends’ e confesso que não vinha preparada, porque acho o cenário bem conseguido para almoços mais institucionais. O espaço é bonito e respira um ambiente protetor, masculino, que me recorda, de certa maneira, os clubes à antiga, ainda que com algum toque de atmosfera a respirar futuro. Não sei se ainda guardará alguma energia da Bolsa de Lisboa, que habitava o local anteriormente, mas diria que é um espaço que dará corda a muitos negócios. Atrevo-me a dizer até que o Populi talvez se torne um dos restaurantes mais bonitos e sofisticados para muitas das decisões da nossa cidade. A elegância e as tradições portuguesas homenageadas na carta prestam-se a isso.

Depois de descobrir que fecham pelas duas da manhã, registei que será também uma boa opção de petisco de fim de noite (fiquei de olho nas vieiras e nas tábuas de presunto, enchidos e queijos), depois de um teatro ou espetáculo para os lados do Rossio.

No Domingo, regressei para experimentar o brunch. O Artur era um dos dois empregados de serviço – desta vez fui para a esplanada – e cheio de boa vontade e simpatia e apenas com dois dias de casa, fazia o que podia. Duas pessoas apenas, para uma esplanada que começava a abarrotar, criaram um pouco de caos, num brunch que gosto de pedir sem esperar muito. Com duas versões, que diferem pela presença da fruta, fui para o mais simples de €12. Qualidade razoável, mas disposição no prato discutível, puseram-me o prato à frente, sem talheres – incompreensível para o posicionamento do restaurante. As bebidas – sumo de laranja natural e um café americano – chegariam apenas a seguir aos talheres – segunda falha, ao não cumprir uma das regras básicas de um brunch: chegar tudo ao mesmo tempo. Felizmente, a boa conversa da minha companhia e a simpatia do Artur salvou qualquer hipótese de feitio alterado.

Ainda a afinar agulhas, acho que o Populi é mais uma conquista para Lisboa. Prevejo-lhe um carisma muito próprio, e um bom casamento entre a sofisticação e os valores tradicionais, um pouco acima das tascas chiques. Dava apenas algumas dicas na apresentação dos colaboradores, que nada tem a ver com o tipo de cliente que lhe assentará como uma luva. E com o melhor polvo que provei alguma vez em Lisboa, assim decreto: é para ir e voltar muitas vezes.

crónica ‘Saída de Emergência’ publicada dia 19 de julho de 2012 na Vogue


Populi
Ala Nascente Terreiro do Paço, 85-86, Lisboa
Tel. 218 877 395
www.populi.pt
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