Sobre o passatempo ‘Porque é que Lisboa e Porto são cidades complementares?’, aqui seguem os contemplados, os quais agradeço o envio da morada completa para o e-mail desta plataforma.

Não percam o próximo passatempo a ser revelado já para a semana.

Uma noite na Casa do Conto, no Porto
Vanessa Santos Cunha

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Uma garrafa de Niepoort
Filipa Cruz
Laura Tarouca
Mafalda Marcos
Sofia Coelho

Um Caderno Azul da Firmo
Belinha Fernandes
Bruno Slewinski
Márcia Mendes
Pedro Domingos

Vanessa Santos Cunha
Há um cais na cidade que nos leva ao mundo. Não há lodo no cais, mas cidades que se abrem atrás deles. Aqui, onde a terra persiste.Ruas que saem em volta dos cais de onde se partiu para mundos revelam-nos o outro mundo, as outras cidades de braços abertos para as riquezas que o mar dá. Escamas de outros dias e portos de abrigo para almas que procuram transparências de luz. Azulejos em igrejas que devolvem a claridade e uma luz. Boa.As ruas da cidade albergam gaivotas que se misturam com os citadinos. Gaivotas no Tejo, tempestade no Douro? Não, o Douro sempre tranquiliza e o Tejo é sempre doce. A cidade também é delas e dos pombos imigrantes que entram e lojas e cafés. Lojas e cafés no Rossio, nas ruas que descem do Príncipe Real. Ou será na Mouzinho da Silveira?Os comboios que chegam do Norte podem rumar para sul, e a Estação de São Bento pode albergá-los a todos. Ou será a do Rossio?O viajante sente a brisa na face e o cheiro a bifanas e a ginjinha. Ou será um cheiro a bolinhos de bacalhau e a francesinhas?Caminhando pelas ruas, entra numa livraria. Diz-se que os livros são conforto para as almas e para os olhares. O túnel da Bertrand no Chiado conduz-nos às escadas da Lello. Os livros na prateleira guiam o itinerante. As palavras de José Régio levam-nos a outro José, o Saramago. Detemo-nos na história de um cerco e encontramos outro José, o Peixoto. O Alentejo também dá luz e existe à beira do Atlântico.Encontramos o Fernando, que é Pessoa. Escreve poemas salgados, és nevoeiro Portugal. Será Fernando quem escreve? Ou será Ricardo Reis? Sábio, aprecia o espectáculo do mundo. Futuro e passado, novidades na esquina no rosto do que foi, do que é. A esperança do que pode ser.O viajante procura margens de rio e encontra. Um cacilheiro provoca ondas e os barcos rabelos ondulam. O viajante vê o rio que entra pela cidade e que a divide; ou a multiplica em margens.Atravessamos o rio e o vinho saboreado na Vila Nova que é Gaia reflecte os telhados e as cores da Ribeira. Ou serão os azulejos dos prédios de Alfama?Num beco sai fumo de assar sardinhas que nos leva ao Miradouro de Santa Luzia e ao nocturno da Graça. A Sophia surge-nos em toponímia e em palavras e uma outra cidade emerge, a fiel e constante invicta. Os pés descem as subidas que nos levam mais perto do céu, ao topo das colinas onde quase avistamos a Foz. Os barcos tocam-se no infinito e a cidade diz-lhes adeus, sem ressentimentos.O viajante não pára. Encontra o Palácio da Bolsa e talvez esteja apenas nos Paços do Conselho, o Cais do Sodré a espreitar. Não é.O eléctrico sobe, que sobe, sobe a calçada. No jardim da Estrela, o viajante encontra os pavões dos jardins do Palácio de Cristal. A “ternura” estátua tranquila à beira do lago de cristal dá o mote para esta sombra, esta luz, este riacho, este lugar.Talvez já o viajante deambule por Serralves, esteja perdido dentro dos jardins, encontre arte numa casa branca. Ou encontrou a paz e as cores nos Jardins da Gulbenkian? Ou as árvores exóticas no Jardim Colonial, os vestígios da Exposição do Mundo Português? Ou saboreia as frutas, o bacalhau e os sabores e outras cores na Casa Oriental?Os sabores. Deslizamos a colher de saborear os dias e as alfaces misturam-se com a carne de tripas, com o prego no prato, as francesinhas derretem o queijo em cima de um bitoque, de um prato de iscas com elas, os caracóis procuram a companhia de um fino, os chocolates da Arcádia encontram um pastel de Belém. Sorriem e cumprimentam-se com a elegância de uma família inglesa, com um palacete na Foz ou residência habitual em Cascais ou no Guincho.Há uma elegância na cidade, um ar distinto que passeia pelos Aliados que entra pelos dedos das mãos que seguram a bola de sabão dos sonhos. Dos sonhos de criança, quando se esperava pelo cacilheiro no antigo cais, a senhora a vender “pilhas para o rádio” e o “nougat quatro cem”. Talvez essa bola de sabão de sonhos tenha encontrado outros pregões no Bulhão, outras vendedoras de doçuras em vozes amargas.O viajante já se encontrou na cidade, encontra a identidade de cada uma das ruas impressa nas suas gentes, num linguarejar diferente que distingue e compromete, identifica e universaliza.Fados e marchas, cantares e danças. Santo António que se acaba, um balão para brincar São João.O viajante canta.’Quem vem e atravessa o rio vê-te a ti, varina com algas na cabeleira. Gaivotas vêem pousar’ no teu xaile, em vez de corvos. Ou serão ‘milhafres feridos na asa?’Ver-te ‘assim nessa altivez, a vender sonhos e maresia’, minha Lisboa, tu Porto, as cidades onde ‘é sempre a primeira vez., mesmo que não seja um regresso a casa’. Onde mora uma casa feita de mar, de cor, de luz, de singularidades de uma cidade atlântica. Tu Porto fiel, raízes de oceano, abarcas em ti essa luz bela e sombria. És Porto sentido e quem é filho de boa gente só em ti sente. Maria, de apelido Lisboa, bailas com o mar e vislumbras essa luz que ameaça mediterrâneo, que guarda em si a mistura de todos os que vieram antes a ti. Há um cais na cidade que nos leva ao mundo e nos devolve à terra. A terra que espera, a terra que abraça. Lisboa aqui, o Porto no teu olhar. Lisboa em ti, o Porto no teu nome. Lisboa contigo, e um Porto para ti.

Filipa Cruz
Não sei ainda se se complementam, mas vivem juntas. 
Afastadas por meio país, à distância e sombra, ora duma, ora doutra. Elogiam-se-lhes a luz, as pedras, as pessoas, e contam pelos dedos os seus contrastes, as suas diferenças. Não acho Lisboa menos bela que o Porto ou o Porto menos belo que Lisboa. Todas as cidades falam aos ouvidos de quem as ouviu; todas as cidades (e as vilas e as aldeias), são de quem partilhou tempo com elas.
Porto-Lisboa, um eixo recente para mim. Quando se parte de uma para outra há uma troca nos afetos, às vezes há ciúmes da cidade-mãe, outras vezes uma sensação de liberdade na cidade-estranha.
Quando não temos os olhos do passado sobre nós — e, portugueses, pairamos num país que é como uma vizinha curiosa — sair de onde viémos faz mais por nós que qualquer outra coisa. A liberdade de sermos quem quisermos é sempre novidade longe de ‘casa’.

Laura Tarouca
Quando há três anos me convidaram a passar os feriados de Junho no Porto, a muito custo me convenci que a troca de uns dias de praia pelo imaginario de uns dias cinzentos,era directamente proporcional à profunda amizade que nutria pelos meus anfitriões do Norte.
Desde entao que o Sol brilha invariavelmente na minha vida pois todas as semanas corro de Lisboa para o Porto e vice versa,tendo desfeito a distancia ao sabor da necessidade e do prazer.Casei me e vivo nas duas cidades.
Chego ao Porto e estou em casa; chego a Lisboa e em casa estou.
Lisboa ,cosmopolita, fervilha a cada esquina-umas vezes de alegria pela novidade que acontece ou que se inventa acontecer,porque todos os dias alguma coisa  acontece e  se festeja,outras de agressividade pela urgencia das horas,dos minutos ,da vida,na indiferença de uma cidade a abarrotar de desconhecidos .A cada canto o Sol e a  luz brilham mais que tudo – Lisboa impoe se  glamorosa e invade nos a alma.
Lisboa corre mas nao tem pressa “vai demorar algum tempo!”,”amanha,talvez para a semana,depois ligamos a  avisar” .Lisboa tem o rio que se espreguiça e nos afasta dos do lado de lá.
O Porto tem  voz na tradição.
Tudo o que acontece tem o seu espaço e o seu tempo .O rio é de ouro e insinua se a cada curva manietando as margens para uma  cidade una que nao se afasta do outro lado.No Porto nao ha “um lado de lá”.No Porto ha disponibilidade,ha vontade de servir os outros e ve los felizes.Os outros nao sao indiferentes.O Porto é Natal-pacifica nos a alma.
Sou destas duas cidades diferentes, sustentadas dentro de mim com a sua misteriosa presença, num equilibrio quase universal.

Mafalda Marcos
Lisboa é luz, de horizonte azul no cume da colina, sobre o Tejo que caminha largo e delicado até ao mar.
O Porto é a neblina que tão bem lhe assenta, quente, no alto da escarpa que observa o Douro dançante ao largo da encosta.
Lisboa vasta grita por multidão e movimento, pela inovação, pela mudança e vitalidade que conhece desde sempre. O seu fado é constantemente renovado. Nela, há aqueles que caminham apressados, imperativamente sofisticados e confiantes; outros caminham descontraídos, delicados e igualmente belos. A passo demorado, subindo pela baixa pombalina em direcção à Rua da Atalaia. No Porto, ouve-se alto o eco de novas ideias e projectos, de um energia vigorosa e contagiante, uma frescura bem desperta sobre o conforto familiar das ruelas estreitas e aconchegantes. De Bombarda a Cedofeita, passando pela Rua do Bonjardim para um copo de vinho e um petisco, muito há para contar. As suas gentes, essas, pouco ou nada diferem das anteriores.
Lisboa e Porto são vida, juventude de olhos bem abertos e braços estendidos ao futuro, desde a primeira brisa da manhã até ao último sopro da madrugada. Sem nunca lhes doerem os pés, sem nunca se querer menos do que tudo. Na ânsia da descoberta, da incessante procura pelos caminhos que não vêm no mapa. Por mais uma dança, por um novo sabor, um outro cheiro, mais cor, arte. Nas partidas e nos regressos ficam as lembranças, as histórias e os segredos que marcam cada vista sobre o rio. Porque das pessoas se fazem as cidades.
 De Lisboa e Porto para o mundo, de traçados distintos com sabor a tradição e a modernidade. De afectos pulsantes, que se complementam… como o sangue que corre nas veias de quem as faz.

Sofia Coelho
Era uma vez o Porto. Vivia sisudo, envolvido no cinzento da sua calçada, embrenhado na neblina do seu passado. Na dureza granítica do seu corpo fervilhava um mar de gente de palavras soltas e verdadeiras, de risos abertos e de mão calejada. No entanto, ao Porto faltava algo… Ansiava, no seu íntimo, pelas carícias do sol e pelo calor da sua paixão. Passava longas horas entretido, nas margens do seu rio dourado, fazendo projectos, reinventando-se, crescendo, cultivando-se. Eis que este Porto de afectos tímidos conhece, um dia, uma menina cidade chamada Lisboa. Garota atrevida, empoleirada no alto dos seus saltos, ziguezagueando por entre os raios de um sol de Primavera. Encandeado pelo brilho da sua pele, pelas cores vibrantes do seu vestido e formosura das suas curvas, foi amor à primeira vista. “É isto!” – diz o Porto. Mas Lisboa não estava nem aí. Culta e excêntrica, senhora do seu nariz, Lisboa desdenhava dos modos rudes do pobre Porto. As palavras cheias e redondas faziam corar as pedras da sua calçada. Permaneceu indiferente a todas as toscas tentativas de sedução, até que o Porto, resignado, lá voltou para casa desconsolado, reconfortando-se na sua neblina, nos seus projectos, redescobrindo-se, crescendo, cultivando-se… Lisboa continuava, balanceava-se provocadora e alegremente, de matiné em matiné, de ruela em ruela, entre o ressoar de vozes roucas que cantavam sofrimentos e saudades, escapando-se por detrás de portas entreabertas.
Foi numa tarde de Domingo. Lisboa tinha ido ao Norte visitar a família. Ia distraída trauteando uma canção quando… tropeçou e caiu no chão, rompendo a meia e esfolando o joelho. Entre ais e uis, Lisboa levantou os olhos, e foi aí que o viu. Em toda a sua imponência, o Porto espraiava-se à sua frente. Estendeu-lhe uma mão amiga – “Precisa de ajuda, menina?”. Lisboa deu-lhe a mão e levantou-se, corando. Apanhada desprevenida, Lisboa deixou-se levar. Descobriu recantos, paixões escondidas, descobriu a gente e perdeu o medo às palavras desavergonhadas.
 Foi assim que tudo começou… No entanto a história desta paixão está longe de encerrada. A dança de sedução continua. Passo à frente, passo atrás, piruetas e malabarismos. É uma paixão em eterna construção, como todas as boas paixões. Uma coisa é certa, Lisboa e Porto nunca mais serão os mesmos um sem o outro. Resta-nos reclinar confortavelmente e contemplar o desenrolar desta interminável história de amor.

Belinha Fernandes
Lisboa e Porto namoravam às escondidas. Era um segredo bem guardado pois os amigos de uma e de outro não enxergavam este romance com bons olhos. Mesmo que não tivessem coragem de o confessar, para não ferir os sentimentos dos apaixonados, isto  era um caso de traição e só poderia acabar mal. Porto, mas o que te passou pela tarola? É mulher de guita, é isso? Não podias ter pescado uma catraia das nossas, meu trengo?  – murmurava A Menina Nua, rodeada de pombos, que lhe davam razão, quando ele atravessava a Avenida dos Aliados, para alcançar o estacionamento. Porto virava costas à estátua branca e  recitava, em tom insolente, Lisboa com suas casas/De várias cores, /Lisboa com suas casas/ De várias cores…!Lligava o motor do seu carro e seguia ao ritmo do seu coração, eram três horitas de viagem, que ele era cauteloso. Cruzava as amplas avenidas e dava graças por ser fim de semana e não haver trânsito. E depois ela abria os braços para ele, a luz a iluminar-lhe o olhar claro, a sua linda Lisboa. Pulavam pelas sete colinas, ele sussurava-lhe que todas as grandes cidades se situavam em colinas, assim Lisboa, assim Roma, e subiam ao castelo de S.Jorge, depois desciam até à baixa, cansados e felizes, Oh, Lisboa, casas comigo? Lisboa ria-se, fazia covinhas nas bochechas quando apontava a fachada rendilhada do Mosteiro dos Jerónimos, ali, meu amor, ali? Sentados num café dividiam um pastel de Belém e tomavam uma bica, dizia ela, ele dizia que era um cimbalino. Ela, bica. Ele, cimbalino. Ó, cala-te lá. E riam os dois. Caminhavam junto ao Tejo de mão dada, contavam gaivotas. Davam-lhe nomes. Porto diz-lhe que não sabe porque é que o símbolo de Lisboa é um corvo, devia ser a gaivota. Diz, Lisboa, já viste um corvo por aqui? Lisboa disse que não, mas que já tinha visto uma cabeça de rinoceronte esculpida em pedra e levou-o à Torre de Belém. Se a descobrires, pago-te o almoço, disse-lhe rindo!  E enlaçados ficaram pela tarde fora, num banco junto ao Tejo, vendo os navios, até que o pôr do sol os envolveu lentamente num beijo. E passados oito dias, Lisboa apanhava o comboio na  Gare do Oriente e subia ao norte, o coração ansioso, os olhos emocionados quando via o Douro a luzir, lá em baixo, e ela temendo que o rio adivinhasse o seu segredo e o desguasse no mar… Lisboa, apaixonada por um tripeiro? –  parece que ouve o rio dizer, uma alfacinha de nariz empinado e palavras sempre educadas, isso não, mulher. O teu fado é a  Mouraria, a Alfama, volta para as tuas ruas da amargura, vai cantar a tua desdita à luz das velas, num tasco escondido. Lisboa estremece mas os seus olhos descobrem Porto à saída de S. Bento e logo esquece os seus receios. Quando o viu a primeira vez, a emergir da bruma, algo sombrio,  quase taciturno, achou-o belo e cheios de histórias para contar. Corre para ele. Juntos são uma torre de força, como a Torre dos Clérigos, que se ergue acima deles, está de vigia, segue os amantes pelas ruas apertadas, as suas vozes fazem eco e os gatos fogem às suas passadas! Cheira a vinho, farturas e sardinhas assadas.  Ao longe, o som dos martelinhos. É S. João. É a primeira vez que Lisboa vem ao Porto passar o S.João.  Isto é como as Marchas de Lisboa? , – pergunta. Não sei, Lisboa, eu nunca via As Marchas, diz o Porto. Mas depois tu verás. Desceram até à Ribeira, atravessaram a Ponte D.Luis, e sentam-se à mesa, numa esplanada voltada para a cidade. Hoje toda a gente come sardinhas mas eu quero que tu proves um prato especial. Porto pediu tripas e Lisboa contorceu-se, eu não vou conseguir comer isso, disse, com horror, nunca! Mas ou a fome apertou, tal como nos tempos do Infante D. Henrique, ou o amor venceu, Lisboa fez das tripas coração. Agora és uma verdadeira tripeira, disse-lhe Porto! À meia-noite o fogo de artifício desenhou uma ponte de luz sobre o rio Douro, e quando a TV fez o directo, Lisboa e Porto apareceram na televisão, os rostos iluminados por uma luz maior,  e de norte a sul de Portugal, as duas cidades nunca pareceram tão próximas.

Bruno Slewinski
Lisboa e Porto.
Mulher e homem, feminino e masculino, sul e norte, o claro e o escuro
O alfacinha e o tripeiro, o mouro e outros tantos, dependendo sempre do ponto de vista, se de sul para norte ou norte para sul.
Cidades com foz de rio grande, espanhóis de nascença mas portugueses na riqueza. Uma capital outra invicta, cidades de longa história, história essa que começo curiosamente de norte para sul.
Num país como Portugal, tanta história – tanto com h maiúsculo como minúsculo – cidades como estas complementam-se desde a sua posição geográfica como às suas ligações aos rios e oceano atlântico. A sua histórica rivalidade, hoje em dia mais visível através do futebol e dos seus clubes estandartes, respectivamente Sport Lisboa Benfica e Futebol Clube do Porto, encaminhou a cidade e os seus habitantes a um desenvolvimento fomentado pela competição, pela vontade de ser melhor.
Complementam-se pelas suas diferenças e por essas são inseparáveis. Será possível imaginar Lisboa sem o Porto ou vice-versa. Como um casal terrivelmente apaixonado, situações que os dividem mas no fim do dia não conseguem estar separados.
Complementam-se em coisas que não têm nada haver uma com a outra, nos habitantes, nos sotaques, nos petiscos, nas tradições, no desenho das ruas, nas fachadas das casas.

No fim ou desde o princípio, o que seria de nós sem Lisboa e o Porto?

Márcia Mendes
Lisboa é cheia de luz e o Porto é a cidade da neblina. Lisboa tem as avenidas largas e geométricas e o Porto os cantos e recantos tradicionais. Lisboa tem os caracóis e a Sagres e o Porto a francesinha e a Super Bock. Lisboa tem Belém e o Porto o Passeio Alegre. Lisboa é calcário e o Porto é granito. Lisboa tem o Bairro Alto e o Porto tem as Galerias. Tantas diferenças complementares…vivi nas duas cidades e sou apaixonada por elas. Pelo casario da Ribeira, pela foz e as suas casas, pela vista do miradouro da Vitória e da Serra do Pilar, pela rua Miguel Bombarda, pelo interior dos prédios na Av. dos Aliados… Pelos jardins da Gulbenkian, pela esplanada do CCB, pelo miradouro da Graça, pelas ruelas de Alfama, pelo Chiado… São amores diferentes, claro que são. Mas nenhum é maior do que o outro, exactamente porque me oferecem coisas tão distintas e tão únicas e especiais.

Pedro Domingos
Burilado em granito são,
Ergue-se da neblina, e estende a mão ao mundo
em singulares ofícios que transportam a alma das gentes!

Luz matizada que irrompe sobre as águas prismáticas do Tejo,
lança olhares por entre pregões cinzelados em calçadas que se abrem ao mar.

Foz serenamente revolta, cria árticos gestos que alimentam a emoção num abraço longo de perenidade,
A sinceridade falada transborda do coração!
e no gentil sorriso encontra-se a pureza libertadora do genuíno.

Lioz branco que amplia a claridade abençoada,
Vislumbra por entre colinas a dança estilizada da saudade
que impõe o ritmo compassado dos dias vividos à espera da profecia opaca.

Que pontes? Que laços? Que cumplicidades? Unem estas cidades?
Gestos largos desenham formas vivas,
e como células frenéticas constroem os lugares e inventam a história dos dias.

A diferença desmedida entre os opostos
é regida pelas leis do magnetismo,
unindo os contrários em pontos inimagináveis.

Como são belos os faróis que ferem a noite
com os seus feixes luminosos de esperança.