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Haverá algum lugar no mundo tão especial que nos leve a tocar com as pontas dos dedos o ventre da terra? Sim, fica nos Açores, no Pico do Refúgio de São Miguel. Lá, onde o mar é maior.

De Ponta Delgada a caminho da poderosa Lagoa do Fogo, respira uma morada onde o sangue de um homem, viajante e sonhador, pulsa forte. Um exemplo de empreendedorismo português, inconformado, estoico até, nas palavras dos amigos. De uma casa em Rabo de Peixe, onde respira a linhagem da família Ataíde, Bernardo Brito e Abreu moveu montanhas para concretizar uma vontade: partilhar com todos os portugueses e viajantes do mundo a morada de família onde em criança cresceu para se tornar no homem, que hoje conta o que de tão forte o une a este pedaço de terra.

No topo do monte, a casa que guarda o coração do Pico do Refúgio tem uma vista de 360º de tirar a respiração. Rodeada de beleza por todos os lados, é no imenso terreno da quinta que os oito lofts e apartamentos  se verificam como um dos lugares mais privilegiados dos Açores. Não apenas por fugirem ao rústico tradicional, mas pelo carisma tão genuíno neste turismo rural tão invulgar.

Abraçada à sua estrutura fortificada – que teve, em tempos, um papel importante na vigilância da costa contra corsários; mais tarde, nas lutas liberais, como forte de milícias; e onde em tempos se cultivou chá e laranjas -, o Pico do Refúgio revela-se como uma das moradas mais bonitas do arquipélago açoriano. A casa de campo que foi do pintor e escritor Luis Bernardo Ataíde guardaria, mais tarde, as bonitas memórias da escultora Luisa Constantina, mãe do proprietário.

A beleza e carisma de Luisa Constantina partiram deste mundo cedo demais, mas no pulsar da terra, nas sinfonias das folhas das árvores e no ambiente, onde a serenidade é tão possível, vivem ainda hoje felizes as suas mais bonitas memórias. Os enormes olhos negros, plenos de visão e liberdade para uma mulher do seu tempo, acompanham os passos de quem se move neste privilégio açoriano. Hoje, o Mehari amarelo com que Luísa mostrava os tesouros da ilha, aos amigos, é substituído por um jipe onde o seu filho Bernardo transporta a homenagem que lhe é prestada, em cada pedra edificada.

Ao longo dos hectares do terreno, as mãos de Luísa Constantina abraçam-nos através das esculturas de basalto. Pedras simples que, do Calhau ou das pedreiras do Dâmaso e da Povoação, deixaram para sempre o cunho da sua criatividade. Impossível passar despercebido pelas esculturas que falam connosco, as discussões apaixonantes de Luísa arrastavam japoneses e americanos, como aconteceu com o seu Simpósio da Pedra para colocar os nutrientes de São Miguel no panorama artístico internacional.

Na missão de que ‘na natureza nada se perde’, a procura de um estádio mais alto atravessam o rosto de Bernardo quando partilha as suas memórias. A Mãe, professora nas Belas Artes de Lisboa, tinha a casa sempre cheia de alunos que livremente eram convidados a usufruir do seu paraíso, e, hoje, na missão do Pico do Refúgio, há um enorme sentido de acolhimento. O mesmo acolhimento com que Luisa Constantina enchia a casa de simbologias e traços. Traços frágeis, traços implacáveis, idealistas, e, nas palavras de um amigo, traços delineados pelas mãos, ‘tão largas como as de um oceano’, um oceano que ainda hoje, e na expressão de Bernardo, transpiram a sua voz e sorriso contagiantes.

A um dos seus ‘querubins’, deixou o legado, e coube ao filho mais novo a missão de preservar o que de mais bonito tem a nossa passagem pela vida. Talvez seja esse o argumento que me leva a uma viagem que toca, mais uma vez,o sagrado tão raro deste ‘sitio frágil que é o mundo’: a viagem ao ventre da terra, num curso de mergulho de cinco dias, para o qual o Pico do Refúgio também está preparado com um pequeno Centro de Mergulho, pronto a destruir ansiedades ou e para alcançar um dos estados de silêncio mais poderosos de uma vida.

Com vinte hectares à disposição dos visitantes, em parte inseridos na reserva ecológica regional, a agricultura (que produz compotas caseiras, com os frutos que cultiva) vive sob o voo das aves. Longos são os passeios que podemos dar na quinta, assim como os mergulhos e horas de surf na Praia de Santa Bárbara, a poucos minutos. O movimento da casa é acompanhado pelos caseiros, Manuel e Maria José que, na família há quarenta anos, partilham a saudade da grande mulher desta casa.

Na extensão de que a partilha é uma causa importante para a família do Pico do Refúgio, há ainda jantares feitos à medida. A minha experiência contou com o Chef at Home que, no talento de Rui Jordão de Menezes, me transportou aos sabores açorianos, versão sofisticada: ceviche de cação, ananás de São Miguel e pepino, aneto e lima; sopa fria de meloa de Santa Maria, aipo, funcho e caril cogumelos recheados com morcela regional e ananás; lombo de atum dos Açores com molho de maracujá e “mash” de batata-doce; a terminar com  uma tarte de queijo fresco com doce de amora selvagem. De poucas palavras, mas com muito talento, o chef deu-me uma das melhores experiências gastronómicas de todas as viagens que já fiz a terras dos Açores.

Da natureza, recolheram-se os sabores, assim como do ventre da terra e, nas profundezas do Atlântico e pela magia do Pico do Refúgio, inspirei os Açores, desta vez, a beleza em estado líquido e os sonhos de uma família, assim, idilicamente a pureza desta ilha vulcânica, no seu estado mais belo.

crónica Saída de Emergência publicada a 20 de setembro de 2012 na Vogue online

imagens de Sancha Trindade, Bernardo Brito e Abreu e Nuno Sá e Pedro Duarte Jorge

Pico do Refúgio
Roda do Pico 5, Rabo de Peixe, Ribeira Grande, São Miguel
Tel. 296 491 062
www.picodorefugio.com

Sancha Trindade voou com a Sata