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Sancha Trindade, a autora do site acidadenapontadosdedos.com, nunca se cansa de revisitar o Porto, a sua eterna segunda cidade.

texto de Isabel Paulo e fotografias de Fernando Veludo publicada a 29 de dezembro de 2012, na Revista do Expresso 

Sempre que chega ao Porto, faz-se sol. Literalmente. Foi também assim desta vez, quando se apeou em São Bento, vinda de Lisboa, para revisitar o seu “Porto estrondoso”. “Eu gosto de cidades, das nossas, das outras, mas esta recebe-me tão bem que é impossível não ficar rendida”, desfia a esfuziante alfacinha Sancha Trindade, “menina do Chiado antigo”, criada na Rua do Alecrim.

Pontual como um relógio suíço, às 14 horas, como combinado, a autora do site “A Cidade na ponta dos dedos” (acidadenapontadosdedos.com) — que mede o pulsar às cidades de Lisboa e do Porto — já está a bebericar um café na charmosa Mercearia das Flores, um espaço decorado com objetos de outros tempos e onde só entram produtos regionais de pequenos produtores de todo o país. “Estou quase como em casa”, diz, enquanto fala com as duas Joanas, donas da mercearia e conhecidas de anteriores incursões ao Porto. O ponto de partida da romaria de Sancha pelo Porto não é inocente: “Aqui, a minha perdição é a Sovina, uma cerveja artesanal que terá uma edição de natal com canela e especiarias”, conta, enquanto encomenda uma para mais tarde saborear. À despedida, ela, que se encanta com poesia e palavras, detém-se para comentar: “Sovina! É um belo nome e encaixa tão bem na crise”. Crise que a desgosta mas também a incita “a dar mais atenção à vida e valor redobrado a pequenos momentos”.



Palmilhados poucos metros, ao cimo da emergente Rua das Flores, entramos na Chocolataria Equador, paraíso dos amantes de cacau. Sancha sabe o que quer: ripas de gengibre e chocolate negro, delícia que lhe foi ‘apresentada‘ na Equador de Sá da Bandeira. Mal disfarça a deceção quando lhe dizem que aqui não há, um desgosto curado a goles de chocolate quente de cacau crioulo, magro, servido em copos 100% biodegradáveis. Informação preciosa para Sancha, que tem “a urgência ecológica e social” entre os projetos do seu site. Antes de partir para nova paragem, detém-se nas gulosas prateleiras carregadas de trufas, chocolates artesanais para barrar, derreter e rechear.


Ao subir a Rua Passos Manuel rumo à Praça dos Poveiros ao encontro dos irmãos César e Manuel Correia, donos da Casa Guedes, declara-se portista convicta, credo clubista incutido por um dos três irmãos. “O FC Porto tem o estádio mais bonito, o melhor presidente e a melhor equipa há muitos anos. É um clube com a energia das pessoas do Porto, que não se acomodaram ao facilitismo dos anos 90”, opina. Frente ao Coliseu, estanca de súbito, atravessando a rua de telemóvel em riste para fotografar uma frase em graffiti: “Ama a realidade que constróis”. Um gesto que repete sempre que algo a surpreende, munida dos conhecimentos do curso de fotografia no ARCO, outra das suas fixações.

Nascida em 75, Sancha estudou peritagem em arte para continuar “o negócio de alfarrabistas e antiguidades da família”, de quem herdou o vício do detalhe e a atração pelo pormenor. Por volta das 15h30, é recebida na Casa Guedes com o carinho devido a quem se adivinha os pedidos de cor. Na tasquinha ainda cheia, Sancha começa a levantar uma mesa: “Já está a trabalhar? Então, vai uma sandes de pernil com queijo da serra?”, atira-lhe um dos irmãos Correia. A iguaria, cozinhada pelas mulheres, é receita secreta da família, invariavelmente acompanhada de vinho verde da casa, vindo de Baião. “É de chorar por mais”, comenta Sancha, pedindo que nunca mudem de casa, que garante será um dia vintage com os seus azulejos de parede a brigarem com os do chão. Depois de prometer nova visita, pergunta o que acham de um restaurante da concorrência. “Muito bom”, afiançam sem invejas. “É isto que adoro no Porto, este sentimento de partilha, de associativismo de aldeia grande”, confidencia a ex-jornalista e colaboradora de várias publicações e dos Guias ConVida dos bairros de Lisboa.


Na meia hora de caminho rumo ao Café Candelabro conta que se sente quase uma estrangeira no Porto, “tantos são os sítios novos” que descobre. No Candelabro, espaço retro de animado convívio e que funciona como café, bar e livraria, não há mesas vagas. Sancha hesita se espera ou não. Decide regressar mais tarde, que este é daqueles sítios para se estar sem pressas.



Com o coração partido por deixar para trás meia dúzia de espaços da sua afeição na Baixa, segue para a Artes em Partes, na rua com maior densidade de galerias de arte do Porto, a Miguel Bombarda. Nesta loja com objetos tradicionais portugueses ou oriundos de vários pontos do mundo, o difícil é escolher o presente ideal tal a profusão da oferta, que vai dos corações de pedra às velas perfumadas ou aos posters de filmes remotos. Com a ajuda de Miguel Ortigão e da mulher, fãs do seu site, Sancha decide-se por uma romântica etiqueta de mala de viagem e uma caixa anos 60 para arroz.

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Ao início da noite, é tempo de revisitar a Rosa Et Al Townhouse, um casarão de traça do século XIX transformado em guest house por viajantes (uma ex-gestora e um jovem arquiteto) para viajantes. Nunca é demais trincar aqui umas bolachas de gengibre acabadas de fazer ou um bolo de banana caseiro, ao lanche ou no brunch, servidos na sala ou no jardim a quem bate à porta, seja ou não hóspede da casa. É o que faz Sancha, que aos 37 anos mantém a avidez pela novidade com genuína paixão adolescente.

O Roteiro de Sancha Trindade
As escolhas da lisboeta rendida ao Porto

  • A Mercearia da Rua das Flores, Rua das Flores, 110
  • B Chocolataria Equador, Rua das Flores, 298
  • C Restaurante Casa Guedes, Praça dos Poveiros, 130
  • D Encontro súbito com o ‘Principezinho’, Rua da Picaria
  • E Loja Artes em Partes, Rua Miguel Bombarda, 457
  • F Café/bar Candelabro, Rua da Conceição, 3
  • G Guest House Rosa Et Al, Rua do Rosário, 233
texto de Isabel Paulo e fotografias de Fernando Veludo publicada a 29 de dezembro de 2012, na Revista do Expresso 

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