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Anda por aí uma pequenina empresa de cerveja artesanal que, não fazendo mossa no velho duopólio nacional, dá que falar no meio dos entendidos. Lançaram agora um lote curioso.

No que se refere a cerveja, Portugal é um caso de estudo sobre a concorrência de mercado. Em nenhum outro país europeu, próximo ou longínquo, os cidadãos estão condenados a um duopólio que divide em fatias iguais cerca de noventa por cento do mercado (ou mais). Grosso modo, quando se vai a um restaurante e se pede uma cerveja há duas
hipóteses: Sagres ou Super Bock. Aliás, na maioria dos casos nem há opção de escolha. O cidadão leva pelos queixos com a marca que o tipo do restaurante negociou a longo prazo e toca a despachar porque há ali outra mesa para atender.

Há uns anos, quando o castiço Sousa Cintra tentou – vejam lá a petulância – conquistar 10 por cento de quota de mercado, as regras desse mesmo mercado dito liberal arrumaram-no ainda nem a marca Cintra tinha chegado aos beiços dos consumidores. Sim, sabemos que o homem andou por aí a fazer contractos ruinosos nos diferentes canais de distribuição mas, que diabo, os portugueses amantes de cerveja estarão condenados a viver o resto da vida entre a Super Bock e a Sagres? Só há mercado para dois operadores? Chama-se a isto mercado concorrencial? Esquisito, não?

Em 2001 fiz um pequeno roteiro cervejeiro no sul de Copenhaga, em terra cujo nome não me lembro por razões relacionadas com natureza do passeio. Numa única rua podiam-se encontrar duas ou três pequenas cervejarias artesanais. Uma delas era branca e bebida à temperatura ambiente. Como não regressaria à terra, esforcei-me por provar tudo. Se no mundo do vinho a amostra para provar é menos de um decilitro no copo, perante cada mestre cervejeiro é indelicado não emborcar pelo menos uma pint (meio litro).

Tirando a necessidade de encontrar o WC das cervejarias umas duas vezes por cada pint bebida, o roteiro foi antropologicamente proveitoso, muito alegre e assaz ruidoso quando irromperam os tenebrosos cânticos de folclore dinamarquês. Só com álcool foi possível ser musicalmente tolerante.

Nós por cá não temos nada que se compare ao caso dinamarquês. A única cerveja artesanal engarrafada que dá uns tímidos passos é a Sovina, uma marca do Porto feita por dois aventureiros. São tão pequeninos que não
conseguem produzir mais 3 mil litros de cerveja por mês. Coitados. Quando se liga para a empresa podemos ser atendidos por Américo Abreu, o cervejeiro e designer de profissão que anda no meio das cubas a ver como
está o malte e o lúpulo a fermentar.

Da Sovina estão no mercado seis diferentes categorias de cerveja: IPA, Heller, Trigo, Amber, Stout e Bock, vendidas entre os €2,5 e os €3. Se cada uma tem aromas e sabores próprios, vale a pena dizer que são todas muito interessantes, gulosas e moderadas em matéria de gás. Donde, cervejas com personalidade e nada pesadas.

Em cada estação a marca lança uma nova cerveja. Neste Verão, e a pedido de Sanha Trindade para comemorar o aniversário do seu blogue, A Cidade na Ponta dos Dedos, a equipa da Sovina criou a inusitada cerveja Atlântica, aromatizada com gengibre, lúcia-lima, coentros e casca de laranja, produtos que a autora do pedido identifica como sendo veraneantes. À partida, este lote de 800 litros tinha tudo para dar errado. Mas isso é preconceito de bebedor de cervejas fortes. A Atlântica é muito fresca, perfumada, certamente ideal para iniciar o público feminino e – é só uma ideia – bem indicada para acompanhar comidas asiáticas. Mais do que tudo, é um exercício de criatividade que os amantes de cerveja agradecem.

A Sovina é um grão de areia no negócio em Portugal, mas se eu fosse da Unicer ou da Centralcer ficava de olho aberto.

artigo de Edgardo Pacheco publicado a 29 de Julho no Jornal de Negócios