Quinta do Vesuvio Casa 48 Douro Graham's Symington Family © Sancha TrindadePin it

Guardo-a como um pequeno tesouro. Assim como uma garrafa a quem regressamos muitas vezes, ao longo do ano, para enaltecer a memória do melhor do que tenho vivido a bordo do meu país. E não, não censuro os queixumes da espera da partilha. Há viagens que são só nossas por um tempo, assim como os poemas secretos onde conseguimos sentirmo-nos seres humanos sublimes. Não foi uma crónica que se perdeu, mas um momento que se saboreou escondido como um tesouro. Que maturou com a intemporalidade do melhor que guardo na memória.

Assim tenho eu vivido o privilégio desta casa, a Quinta do Vesúvio. E se as imagens falam por si, retenho-me na ilustríssima senhora que faz flutuar a energia e a história desta casa. Dona Antónia Adelaide Ferreira, que nasceu no peso da Régua, num dia estival, no início do século XIX, e é uma das minhas inspirações, que ao lado de muito poucas mulheres portuguesas, ocupa a prateleira mais pedestais da minha biblioteca Atlântica.

Com uma vida dedicada ao Vinho do Porto, a Ferreirinha foi notável na introdução de inovações para a época. Cedo viúva de um marido que pouco acrescentava à mulher que se viria a tonar, não se deixou encostar ao dinheiros e às vinhas da sua família e com a ajuda de José da Silva Torres (o administrador que viria a tornar-se o seu segundo marido) lutou estoicamente contra o desfoque do governo português.

Reconhecida pela sua guerra à doença da vinha, a filoxera que a levou a Inglaterra para aprender os meios mais eficazes de combate a esta peste, bem como processos mais sofisticados de produção do vinho. A Quinta do Vesúvio é por isso uma morada muito especial, tendo sido uma das quase trinta quintas que deixou no ano da sua morte (1896), e também por isso ser uma casa onde sentimos grandemente o testemunho do quão longe por ir a vontade e perseverança de um ser humano.

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House and chapel Vesuvio © The Vintage PortPin it

Todas as imagens são postais vividos na pele do Douro, mas é de longe que no seu conjunto absorvo os grandes poderes desta casa. E seja nas cores das diferentes estações que vou recolhendo ao longo do ano, seja nos passeios partilhados debaixo de árvores frondosas onde me enalteço, é no Douro que vivo uma das imagens mais sublimes do meu país e não tenho dúvidas do privilégio, sempre que por lá acordo. As janelas abrem-se ao rio, enquanto os pássaros voam e esvoaçam um ‘bom dia’, único e transmissível a todos os que como eu se ajoelham perante a magia do Douro.

Sempre acreditei na energia dos lugares e por isso sempre senti as fortalezas que se erguem nestas paredes e de onde se parte para o trabalho da terra. Dos socalcos brotam vinhos onde a unicidade é inegável. Toco com a ponta dos dedos a gratidão. Seja acompanhado da alegria perseverante de Joe Alvares Ribeiro, do veludo discreto e fresco de Mariana de Brito, ou da elegância subtil de Gonçalo de Brito, que também fazem parte da família Symington, as muitas viagens que por lá vou fazendo, têm um lugar elevado nos álbuns das melhores memórias.

Mas nas provas, é com os verdadeiros membros da família que tiro as melhores notas. Paul e Charles Symington (o enólogo da casa sempre com o seu guarda costas Masai, um leão da Rodésia que já faz parte da mobília) fazem as honras da casa.

Com o Quinta do Vesúvio 2007 sinto a frescura e a elegância, do Quinta do Vesúvio 2008 sinto o sal e a pimenta. E se concordo com Paul Symington quando diz que os vinhos DOC do Douro estão ainda a encontrar o seu caminho, os ensaios fazem-se com a mesma humildade que fez desenvolver todas as marcas desta casa.

O Quinta do Vesúvio 2009, apesar dos desafios – Verão muito quente com apenas 7 mm de chuva – revela-se como um um marco forte no nome Quinta do Vesúvio. Salvos pelas vinhas predominantemente viradas a nordeste, resguardadas da inclemência solar, e da resistência da altas temperaturas que compõem a sinfonia das três castas usadas. Ainda a importância da Touriga Nacional representar quase um terço de encepamento do Vesúvio e que plantadas nos socalcos mais elevados, gozam de uma frescura singular, que quando misturadas com os mais de cinquenta por cento de Touriga Franca, conseguem alcançar o seu melhor destino.

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Os tempos são de vindima e há convidados a chegar por todos as portas. A Mariazinha e Célia alinham desde manhã uma cozinha que a todos é sempre familiar. Sem qualquer pretensão, com um coração aberto a todos os que ousem espreitar os preparativos do jantar de lagarada e com aos aventais sempre engomados, a ordem é para sorrir e partilhar. Decantam-se os vinhos e chegam as ajudas para dar lustro aos talheres. O telefone da casa ecoa o reboliço controlado de uma casa onde todos os que chegam são recebidos de braços abertos como se fossem da família.

Paul Symington no final do jantar reúne-nos a todos pela eloquência das palavras. Enquanto discursa, o Douro emoldura os sentimentos com que emociona o seu discurso. São duas as tradições que se reúnem numa noite, onde as margens do rio nos testemunha: Lagar e Fado, a segunda pela presença de Cátia Guerreiro que cantará durante a lagarada.

Na convicção das suas palavras, o Douro não vive do passado, nem os vinhos vivem apenas das vinhas velhas e dos lagares do século XIX. E se a família que hoje gere uma das nossas maiores empresas familiares, não abandona nunca as tradições, a sua visão vive para além da história e do passado. Pioneira na concepção dos seus lagares modernos, que eu bem observei na Quinta dos Malvedos a Symington Family States é também rigorosa com a passagem do legado de tudo o que vai construindo.

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Quinta do Vesuvio Jantar 13 Douro Graham's Symington Family © Sancha TrindadePin it

As tochas acendem-se ao longo do caminho entre o lindo alpendre da casa e a adega e a todos é feito o convite dos trajes do lagar. A ordem impõe respeito e alegria e no momento da pisa não há espaço para diferenças e assim toma lugar a lagarada nas lindas caves da Quinta do Vesúvio. Passam por mim o Sr. Agostinho e o Engº Mário Natário, habituados a ser os guardiães desta casa, mas em noite de Lagarada, quem dá as ordens é o Senhor Arlindo que põe tudo a pisar a uva ao ritmo do respeito e da solenidade do momento.

Os abraços misturam a mais sublime simplicidade dos humanos, sejam eles da família Symington, dos convidados, dos jornalistas presentes ou dos trabalhadores que trabalham para a vindima.E há rostos inesquecíveis como o Senhor Alcino que faz esta lagarada há muitos anos.

A cadela Violeta assiste a tudo. E enquanto a princesa rafeira presencia a intensidade da noite, as velas iluminam-se pela voz de Kátia Guerreiro e o enólogo João Paulo Martins anima a festa fazendo ecoar o tambor com o paladar das suas mãos. Nesse momento retenho-me nas suas palavras no seu guia Vinhos de Portugal 2012. “Desta quinta emblemática surge-nos este tinto muito bem afinado e com um requinte só ao alcance dos melhores”. E assim enquanto a dança se faz fresca e sem qualquer fronteira, elogia-se o passado e homenageia-se, com a solidez dos visionários, o que a família Symington constrói todos os dias. Pela sua família, pela imagem de Portugal, mas sobretudo pelo seu sempre bem antecipado futuro.

Quinta do Vesúvio aqui e Symington Real States aqui.

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Quinta do Vesuvio Lagarada 01 Douro Graham's Symington Family © Sancha TrindadePin it